"Ainda tratamos agricultura de precisão como exótica", diz presidente da Associação Brasileira de Agricultura de Precisão


Paulo Palma Beraldo

SÃO PAULO - Presidente da Associação Brasileira de Agricultura de Precisão (AsBraAP), José Paulo Molin é uma das principais referências em agricultura de precisão no País.

Molin é professor da Esalq, da Universidade de São Paulo, e atua no Departamento de Engenharia e Biossistemas, especificamente no Laboratório de Agricultura de Precisão. O pesquisador também coordena a Comunidade Latino-Americana de Agricultura de Precisão.

Para ele, é possível observar um "evidente crescimento da agricultura de precisão nos últimos anos". Estudo da consultoria alemã Kleffmann indica que há no país cerca de 9 milhões de hectares que usam técnicas de AP. Para o futuro, um dos desafios é inovar nos serviços relacionados à gestão da variabilidade espacial das lavouras, diz Molin.

-> Confira o especial do De Olho no Campo sobre agricultura de precisão.

No laboratório onde trabalha, um dos mais destacados do Brasil neste segmento, há pesquisas em setores como laranja, café, cana, algodão e grãos. Os projetos de pesquisa são predominante financiados por recursos públicos e parcerias com indústrias, cooperativas, fundações de pesquisa e produtores.

Confira abaixo a entrevista. 

De Olho no Campo: Como está o mercado de AP atualmente?
José Paulo Molin: Observamos um crescimento nos últimos seis, sete anos. Mas é importante lembrar que existem dois tipos de agricultura de precisão. A que mais evolui é a da automação, dos equipamentos e da tecnologia. O que nos preocupa é a outra: a da essência do nome, a mais guiada por serviços e menos por equipamentos e tecnologias. 

Chegamos a um patamar em que precisamos de algumas contribuições mais disruptivas em termos de como avançar. É preciso encontrar alternativas mais compatíveis com o momento e ter aportes de conhecimento no campo para que os serviços sejam ainda melhores. 



Como está o desenvolvimento da agricultura de precisão na América Latina?
O que acompanhamos com visitas, contatos, eventos e reuniões é que a Argentina tem um trabalho de grãos bastante avançado. A grande diferença é que o Brasil foca na gestão da variabilidade na amostragem do solo em grade e em taxas variáveis, porque nossos solos são pobres. 

A Argentina, por ter solos férteis, trabalha bem mais no mapeamento da produtividade. É mais tecnológica que a nossa, que é mais de serviços. Por fim, acabam oferecendo algumas tecnologias, principalmente as embarcadas, que nos influenciam de vez em quando.

A Colômbia tem um segmento de AP que anda bem. Eles têm área de aproximadamente 240 mil hectares em Cali (extremo oeste do país) e os plantadores de cana da região estão muito focados em agricultura de precisão.

O Chile, um pouco para grãos, que não tem expressão em área, e bastante na produção de uvas, tanto no ramo de pesquisa quanto no mercado.

Como o senhor enxerga o futuro da AP? 
Ainda tratamos a AP como uma coisa exótica. Nossa expectativa é que deixe de ser exótica e passe a ser rotina. Fazer agricultura com precisão é errar menos. 

Ainda tem muito espaço para evoluir. Boa parte da agricultura ainda trabalha com conceitos muito antiquados e muito confortáveis, o clássico "fazer agricultura pela média". Se considerarmos que estamos com 85% das lavouras sendo conduzidas pela média, significa que continuamos errando grosseiramente. Em cada pedaço fora da média haverá erros.

Nós temos que aprender a tecnificar a agricultura, mas isso não é trivial. Ela demanda e depende de tecnologias novas, mas elas têm que boas e baratas, coisa que pouca gente entende. O poder de pagamento da agricultura é muito diferente dos outros segmentos da economia.

Como as tecnologias digitais podem impactar a AP?
A agricultura não assimilou quase nada dessas tecnologias da onda digital. Tudo que vier para melhorar esse processo é bem-vindo, porém tem que ser oferecido com valores que a agricultura consegue pagar.

Tudo que couber dentro da conta "reais por hectare" é bom, mas temos muito para andar e para oferecer em termos de novas soluções. E finalmente temos a entrada do mundo digital, a área de TI na agricultura.

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