“As pesquisas precisam ser mais divulgadas” – Entrevista com Paulo Arbex, Professor de Mecanização Agrícola da FCA/Unesp Botucatu

Texto: Paulo Palma Beraldo
Foto: Arquivo Pessoal

Hoje o entrevistado é Paulo Roberto Arbex Silva, agrônomo e professor da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA) da Unesp Botucatu.  Alguns dos temas pesquisados pelo professor são a mecanização da agricultura, manejo de solo e os processos de semeadura e adubação. 

Paulo Roberto é professor dos cursos de agronomia, engenharia florestal e zootecnia. Participa de feiras e eventos ao redor do Brasil e é coordenador do projeto IPS (Inspeção Periódica de Semeadoras). 

Quando o De Olho no Campo entrou em contato com Paulo Roberto, ele havia participado recentemente do 29º Congresso Brasileiro de Agronomia, em Foz do Iguaçu-PR, o que também foi assunto da conversa, além da necessidade de as pesquisas serem mais difundidas. 

Quais os principais pontos discutidos no último Congresso Brasileiro de Agronomia? 
Três assuntos foram bastante discutidos. Um deles foi o Projeto de Lei 1016/2015, que prevê que o agrônomo não possa mais exercer as atividades inerentes à zootecnia. Hoje,  o agrônomo pode fazer tudo o que o zootecnista faz. 

Esse projeto de lei quer derrubar isso. Para que só o zootecnista possa fazer, por exemplo, balanceamento de ração, e outras atividades que atualmente agrônomos podem fazer. Somos totalmente contra esta medida.

Outra discussão que norteou as conversas foi a questão de o técnico agrícola poder prescrever receituário agronômico. Isso foi muito discutido. Os agrônomos são completamente contra isso, porque entendemos que nem todos os técnicos têm formação apropriada para prescrever uma receita de agrotóxico, por exemplo. 

Imagina o impacto ambiental que isso pode ter. E o terceiro aspecto é o Brasil, o PIB do agronegócio, que é o que tem salvado a economia do Brasil nos últimos anos.

Quais são os desafios do agrônomo para os próximos anos?
Se fosse entrar na agronomia hoje, eu estudaria, sem dúvida nenhuma, a questão dos bioprocessos, transgênicos, biomassa, toda essa parte que envolve bioquímica e fisiologia das plantas. A agricultura de precisão, em especial em relação à mecanização, é um tema que vai ser cada vez mais importante. E o terceiro tema que eu estudaria é a qualidade da produção, ou seja, as boas práticas agrícolas. 

O que o senhor quer dizer com qualidade da produção?
Por exemplo: você vai fazer um plantio. Hoje em dia, como faz? O produtor escolhe a semente, ou o vendedor sugere alguma, que também acontece bastante. 

A pessoa pode fazer uma análise do solo tecnicamente não muito correta, quando é feita, e depois faz um plantio com base numa média geral, sem levar em conta a peculiaridade de cada área. Além da regulagem das máquinas, na maioria dos casos, não estar correta com a prescrição recomendada.

O que seria um plantio de qualidade? 
Para determinada área, vou colocar determinada quantidade de adubo e de semente. Existem áreas dentro do mesmo talhão onde o tipo de solo é diferente, pode ser mais estruturado, o que faz com que a população de plantas dali deva ser diferente em um lugar ou outro. 

Conte um pouco mais sobre o projeto IPS (Inspeção Periódica de Semeadoras), iniciado em outubro de 2014. 
Começou em outubro do ano passado, mas está na minha cabeça desde que eu era estudante de graduação. Felizmente, conseguimos colocar em prática. É um projeto de extensão que visa dar um feedback para o produtor para ver em tempo real como está a semeadora dele. 

Visitamos a propriedade, vemos como está o equipamento no geral, desde calibração da roda motriz, caixa de semente, caixa de adubo. Fazemos um diagnóstico da máquina em si.
Depois coletamos dados de cada linha, quanto cai de adubo e de semente, para a pessoa ver a qualidade do plantio dela. 

Um exemplo: Quando perguntamos: quanto você deposita de semente? Aí o pessoal responde: estou jogando 10 sementes por metro. Já vimos semeadoras que em algumas linhas caíam sete sementes, outras oito, outras doze por metro e assim por diante.  

A semeadora tem várias linhas. O que o pessoal faz normalmente? Vê quanto está caindo em uma linha e extrapola para todas as outras. Mostramos a vantagem de coletar semente e adubo de todas as linhas. Imagine em uma situação hipotética: uma semeadora de cinco linhas, se uma linha ficar sem cair semente, ou se houver um erro, está perdendo 20% da produção.  

Equipe do Projeto IPS na Agrifam 2015. Foto: Facebook/Divulgação
E se deixar de cair uma semente por metro? Um erro totalmente comum, quanto eu vou perder? Uma vez feito, como corrigir? Não tem como. Não dá para semear de novo. 

Esse é o problema de fazer tudo pela média. Não pode ser assim. O que ele vai perder ali? É muito dinheiro.  Então, trabalhamos para ter um plantio com maior qualidade, a chamada plantabilidade. 

Para um produtor participar desse projeto e ter sua máquina inspecionada, o que ele deve fazer? 
Eu aconselho juntar um grupo de produtores, ou uma associação, cooperativa. Aí nós vamos lá e fazemos avaliação das máquinas. Não cobramos pela inspeção, porém não temos recurso para ir visitar propriedades, então os produtores pagam a despesa de transporte, alimentação e hospedagem, se houver. Quanto mais avaliações de máquinas fizermos, melhor para todos. 

Participamos de dias de campo na região de Botucatu, apoiados por empresas, participamos de feiras como a Feira da Agricultura Familiar (Agrifam), em Lençóis Paulista/SP, e a Agrishow também, em Ribeirão Preto/SP.

Como são as pesquisas orientadas pelo senhor? 
Hoje em dia, todos os projetos são relacionados, de alguma forma, com semeadura e plantio. Temos alunos de graduação, mestrado e doutorado que trabalham em diferentes projetos. Por exemplo: profundidade correta da semente, distância correta entre uma semente e outra para um plantio mais produtivo. 

Temos trabalhos com inoculação da soja no sulco de semeadura, para avaliar qual a quantidade correta de inoculante e outros. Estamos entrando com pesquisas na mecanização em horticultura, uma demanda forte, principalmente no plantio. 

Como avalia a importância da divulgação e comunicação das pesquisas?
Temos muitos trabalhos reconhecidos internacionalmente. Mas penso que falta divulgação. Muitas pessoas desconhecem o potencial que as pesquisas da universidade têm. Temos que ter um investimento melhor na divulgação dessas pesquisas, não só aqui na FCA. Em tantos outros lugares, há muitos trabalhos bons para ser conhecidos. 

Nosso papel é pegar nossas pesquisas e torná-las adaptáveis para o produtor. Não temos atribuição de extensão rural, esse serviço é feito por outras instituições como a Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), mas temos que retornar ao produtor o que dá certo na universidade.

O De Olho no Campo agradece a atenção de Paulo Arbex

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