"Temos que fortalecer a imagem de cooperação com outros setores" - Entrevista com Marcos Matos, diretor-executivo da ABAG/RP

Texto e foto: Paulo Palma Beraldo

A Associação Brasileira do Agronegócio da Região de Ribeirão Preto (ABAG/RP) trabalha desde 2001 para valorizar a imagem do setor agropecuário.

O objetivo da entidade é mostrar que existe uma forte relação entre campo e cidade, já que muitas pessoas não param para pensar nisso.

"A qualidade na área da saúde, no ensino e pesquisa, no comércio, nos serviços, na infraestrutura, nas artes, etc. é resultado da renda gerada e dos impostos pagos pelo setor do agronegócio, mola propulsora desta excelência. Apesar disso, o entendimento da dinâmica do setor ainda não permeou todos os segmentos da sociedade, que não lhe atribui sua verdadeira importância", informa o site da associação. 


Um dos fortes da entidade é o prêmio ABAG/RP de Jornalismo, criado em 2008. Um dos diferenciais do prêmio é ter uma categoria aberta para estudantes de jornalismo a partir do 3º semestre do curso. Para os jornalistas de fora região de atuação da ABAG/RP, Ribeirão Preto, é necessário ter um trabalho sobre o agronegócio do nordeste do Estado de São Paulo. 

Para participar, o estudante deve participar do ciclo promovido pela entidade, com visitas a empresas, associações, fazendas e institutos de pesquisa. Há ainda palestras e outras atividades pelo interior de São Paulo.

Outra atividade é o programa “Agronegócio na Escola”, realizado desde o ano da fundação da entidade. A ideia é levar informações a professores e alunos de escolas de Ribeirão Preto e região para conhecer empresas do setor agroindustrial e assistir palestras sobre o assunto.  Nos 15 anos de andamento do projeto, participaram mais de 160 mil alunos e 9 mil professores.
  
Para conversar sobre esses assuntos, o De Olho no Campo entrevistou Marcos Matos, diretor-executivo da ABAG/RP desde julho de 2014. 

Como avalia a experiência no cargo de diretor-executivo da ABAG/RP?
Como já trabalhei na Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), eu trazia uma bagagem de visão institucional. Você não fala como empresa, defende um produto ou estratégia de posicionamento. 

Fala em prol de um grande produto, seja produtores, agroindústrias. Então, essa visão de pensar como cadeia produtiva, com um pé no privado e um pé no público, eu tinha. A experiência na OCB foi determinante para que um dia eu voltasse a atuar numa entidade de representação. 

Depois, trabalhei na Bayer, Bunge, nos projetos da Fundação Getúlio Vargas. E agora na ABAG-RP. Vivemos um momento muito peculiar da nossa história, um momento político e econômico difícil. 

A economia de uma forma geral está muito prejudicada, travada, e temos que mostrar com clareza que algumas políticas públicas incentivadas na nossa história recente têm uma importância grande.

Quando falamos do crédito rural, mas não de consumismo. Falamos de um dinheiro que os produtores recebem, aplicam no seu negócio e retorna para o país como juros. É o momento de mostrar as especificidades do agronegócio para todos os agentes.

E desde a época dos presidenciáveis, com a formulação de propostas, acho que caminhamos bem, inclusive para a imagem perante à sociedade, apesar da crise hídrica que prejudicou um pouco a imagem do setor.

Quais principais pontos negativos precisam ser superados pelo agronegócio?
Negativos ainda estão na questão ambiental. Precisamos mostrar um histórico e assumir alguns erros do passado, principalmente nos anos 1960 e 1970, quando não se discutia sustentabilidade. 

Mas hoje temos uma base sólida para mostrar: integração lavoura-pecuária, agricultura de precisão com uso racional dos recursos, barragens nas fazendas para aproveitar água da chuva, terraceamento, plantio em nível, então temos uma série de boas práticas que precisam ser destacadas. 

Nosso Código Florestal tem algumas críticas, mas trouxe segurança jurídica para a atividade e trouxe necessidade de recomposição principalmente para áreas de preservação permanente. 

A segurança jurídica frente às questões quilombolas e indígenas é algo complicado. Muitas injustiças foram cometidas ao longo dos anos, mas não é com outra injustiça que você corrige um erro.

Temos que lembrar que o agronegócio não defende a perda de direitos. Queremos manter os direitos de uma forma que flexibilize as contratações. Quando você tem indústria, comércio, é mais fácil, coloca um ponto eletrônico e resolve a questão. 

Mas na agricultura é diferente. É sazonal. São outras características. As leis trabalhistas deveriam se atentar às especificidades do agronegócio. Esse é um desafio para o setor.

E a falta de um seguro de renda. Uma política pública do Estado, independentemente dos partidos políticos. Tivemos um avanço embrionário de 2006 para a frente. Esse é um problema: tínhamos que pensar num seguro de renda, questões de mercado, protecionismo de outros países, são variáveis que distorcem os componentes da oferta e demanda no âmbito global. 

O agronegócio tem bons representantes no Congresso?
Temos uma base mais representativa. Conseguimos dialogar mais com o poder público, as pessoas estão mais cientes. Então, mesmo fora da Frente Parlamentar Agropecuária, contamos com parlamentares mais sensíveis à causa. 

Com a crise hídrica, ficou muito claro: ainda estamos na cultura do conflito. Quando surge um conflito, apontamos o dedo para alguém. Então, em momentos de crise, vemos que o caminho ainda é longo. Mas a maior parte tem a sensibilidade da importância do setor, pela geração de empregos, de renda.  

Temos diversas lideranças que atuam na área de agricultura familiar, cooperativismo, florestas plantadas. Temos lideranças tradicionais e outras mais jovens também. Mas de uma forma geral, carregamos uma imagem que precisa ser desconstruída. Temos que fortalecer essa imagem de cooperação e não de conflito com outros setores.

Como encara a tecnologia dos transgênicos?  
A tecnologia é aquela questão da comunicação. Ela precisa ser bem comunicada. A transgenia está conosco há muito tempo, se você olha a parte de medicamentos, por exemplo. 

Qual foi o problema dos transgênicos? Entraram no país na década passada por uma única empresa, com um tipo de produto só, que é a resistência a um determinado produto para determinada prática. Ficaram com aquele modelo na cabeça. Hoje eles vêm cada vez mais forte.

Existem transgênicos resistentes à seca, por exemplo. Isso é algo importante. Vamos fechar os olhos para essa tecnologia? Alguns permitem produzir com menor custo industrial, com mais eficiência. 

São processos em que é possível ser mais resistentes a pragas, doenças. Existem alguns perigos como o escape de genes, mas é preciso fiscalização. Então, se você for bem fiscalizado e manejado, pode otimizar o uso de recursos. 

Cada transgênico tem sua especificidade. O poder público precisa de uma estrutura boa para poder fiscalizar também. É importante a questão das áreas de refúgio. Cada caso é um caso quando se fala de transgênico. Hoje temos muitas empresas ligadas trabalhando com biotecnologia no mundo. E existem grandes globais ligadas às pesquisas de transgenia.

Comente um pouco sobre o "Programa Agronegócio na Escola"
Completamos 15 anos do programa. É uma ação inovadora. Tenho discutido com outras entidades de representação de outros estados como a Aprosoja e a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Famato) para começar esse programa em outros estados. Mesmo o MT sendo um estado essencialmente agro, muita gente não entende a importância do setor.

Estamos evoluindo. Falamos sobre sustentabilidade, recursos hídricos. Temos uma cartilha nova, com dados técnicos e científicos, que mostra a dinâmica das principais culturas. Dá ênfase para a geração de empregos. 



Os alunos podem se reconhecer na atividade. Muitas vezes, as pessoas trocam de regiões por questões de trabalho, quando poderiam trabalhar na própria região se estudassem ou focassem em determinados assuntos.

O programa tem sim um lado profissionalizante por mostrar as oportunidades. Dá oportunidades inclusive para professores direcionarem alguns assuntos ligados ao econômico, ao social. 

A ideia foi um programa que durasse o ano todo. Começamos no início do ano com um concurso de redação. As melhores escolas ganharam uma visita à Agrishow. 

Também temos o Prêmio Professor, um projeto de pesquisa que ele desenvolve ao longo do ano. Ele inscreve o projeto e submete. Depois o implanta, no segundo semestre. Esse projeto será avaliado futuramente no que abordou: lado energético, se abordou inclusão social, se interagiu com os alunos, escolas ou própria comunidade, quanto mais complexo for o projeto, mais pontos ele ganha.

Nós fazemos visitas monitoradas com professores e alunos para diversas cadeias de valor, usinas, Embrapa, agricultura orgânica, cooperativa, máquinas, laticínios, entre outros.

Lançamos também a feira do conhecimento. Cada escola faz com que os alunos trabalhem em equipe temas ligados ao agronegócio. São grupos de 5 a 6 alunos. Apresentamos os melhores projetos no nosso evento de encerramento. 

Nessa ocasião, fazemos nossa feira do conhecimento final, com os melhores trabalhos.  Tivemos trabalhos sobre biodiesel, alguns reaproveitando água que seria desperdiçada para a irrigação. Tivemos trabalhamos excelentes. A qualidade é surpreendente. 

Também tivemos uma abordagem histórica em vários trabalhos. Muitos buscaram a importância do agronegócio nos primórdios de suas cidades. Pesquisaram em livros, pegaram depoimentos de pessoas mais velhas, prédios antigos. 

Houve resgates históricos de muitas coisas que estavam até perdidas. Foi muito acima das expectativas. E acreditamos que esse ano os assuntos serão de grande complexidade também, porque estamos com o tema da água.

Nós premiamos quem fazem o melhor, não é só falar bem ou mal de agronegócio. A ideia é premiar o melhor trabalho. Por enquanto, estamos com as escolas municipais. Há uma tendência que as privadas podem até entrar. Mas várias têm já suas feiras do conhecimento. Mas aos poucos podemos englobar algumas.

Gostaria de deixar uma mensagem final? 

Quando olhamos o Desafio 2050, para alimentar todas essas pessoas, o Brasil tem que responder por 40% da expansão da produção de alimentos. Então, 20% vem do aumento de área e 80% de produtividade. 

Se queremos aumentar a produtividade, a irrigação é imprescindível. Temos potencial de irrigar 30 milhões, mas irrigamos 6 milhões. Mas temos que fazer isso com muita responsabilidade. 

Quando a água entra no processo agrícola, mais ou menos 1% fica na planta para os processos. O resto infiltra, fica no solo, subsolo, evapora, vai no aquífero. 

Outra coisa: onde a crise hídrica aconteceu? Nas regiões desenvolvidas, metropolitanas. A abundância de água só acontece na Bacia Amazônica e em partes do Brasil Central, onde há baixa população. 

Na nossa região, sempre foi um mito falar de abundância. E não é a agropecuária que tira a água da Cantareira. E isso cria um conflito. A agricultura tem que assumir suas culpas, mas  demonstrar que também adota boas práticas.  

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