O que é esse tal de orgânico?

Dois milhões de agricultores produzem alimentos orgânicos no mundo; no Brasil, segmento cresce de 20 a 30% ao ano


Texto, fotos e infográfico: Paulo Palma Beraldo

A última semana do mês de maio celebrou a agricultura orgânica. Idealizada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), a Semana dos Orgânicos buscou divulgar informações sobre esse tipo de alimento para comunicar seus benefícios ao maior número de pessoas.

Atualmente, a área de orgânicos no Brasil alcança 750 mil hectares, com mais de 10 mil produtores e 13 mil unidades de produção. Existem milhares de pessoas, empresas e instituições de pesquisas envolvidas no assunto. Mas… o que é exatamente um produto orgânico? 

De acordo com o MAPA, “a agricultura orgânica não utiliza agrotóxicos, hormônios, drogas veterinárias, adubos químicos, antibióticos ou transgênicos em qualquer fase da produção”. Em outras palavras, é uma produção diferente da convencional, com a qual a maior parte dos agricultores brasileiros está acostumada.

A agricultura brasileira é tropical. Enfrenta muitas pragas inexistentes nas regiões frias do planeta, o que torna o Brasil o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Só que, muitas vezes, simplesmente aplicar o agroquímico não tem sido suficiente.

Controle biológico
É de olho nessa fatia do mercado que muitas empresas querem entrar no mercado agropecuário brasileiro, oferecendo métodos diferentes. É o caso da holandesa Koppert, no ramo desde 1967 e presente em 88 países, que decidiu se instalar no Brasil.

A empresa usa inimigos naturais para combater pragas prejudiciais às lavouras. Essa técnica é chamada de controle biológico. Os bichinhos, que são macro e microorganismos, já estão em plantações de soja, milho, cana-de-açúcar, laranja, tomate, feijão, entre outros.

Danilo Pedrazzoli, diretor industrial da Koppert no Brasil, diz que a empresa está desenvolvendo diversas tecnologias adaptadas para a agricultura brasileira e a perspectiva para crescimento no país é alta. 

Ele entende que há uma resistência dos produtores em um primeiro momento, mas a empresa realiza eventos e dias de campo para mostrar o potencial do controle biológico.

“É uma resistência cultural. O produtor está na segunda, terceira geração usando produtos químicos. Ele não acredita que um organismo vivo, natural, possa controlar outro. Mas a partir do momento que você mostra que o produto tem eficiência e traz benefícios, o produtor utiliza aquela tecnologia e fica adepto a ela”, resume o diretor industrial da Koppert no Brasil.

Vinicius Lopes, diretor comercial da BUG Agentes Biológicos, outra empresa do ramo de controle biológico e inimigos naturais, diz que um dos desafios é “fazer chegar aos produtores rurais a informação da viabilidade econômica e de produtividade do controle biológico”. 

Lopes acredita que o Brasil carece de mais profissionais com formação no assunto. “Nosso segmento também enfrenta leis que travam as empresas de controle biológico, seja em relação aos registros de novos produtos ou tributações”, diz Lopes.

O engenheiro agrônomo José Roberto Parra, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP) é uma das pessoas que mais entendem de controle biológico no Brasil, já que pesquisa esse assunto desde os anos 1970. 

Parra diz que o Brasil tem um excelente programa de controle biológico em cana-de-açúcar e outras culturas como a soja começam a adotá-lo. A ESALQ tem uma parceria com o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) e trabalha para tratar os problemas com pragas nas laranjas usando métodos de controle biológico. “Diversos citricultores já estão sensibilizados a usar nossas pesquisas”.

Além disso, enfatiza que está cada vez mais difícil descobrir novas moléculas de produtos químicos que atendam às exigências da sociedade. José Roberto Parra diz que produtos químicos obsoletos já retirados do mercado internacional deverão ser removidos do mercado brasileiro. 

“O Brasil deverá atender exigências do mercado internacional, como a ausência de resíduos químicos nos produtos exportados. E os transgênicos não são a solução de todos os problemas como se esperava”, explica.

Outro desafio é a existência de propriedades com centenas de milhares de hectares no Brasil, diferentemente da Europa, onde a tecnologia do controle biológico surgiu. Nessa extensão, fica difícil fazer o monitoramento da praga para saber o momento de liberar o inimigo natural, comenta o pesquisador da ESALQ/USP. 

Além disso, a logística de armazenamento e o transporte do produto biológico ficam prejudicados devido à extensão territorial do Brasil.

Parra acredita que é fundamental ter bom serviço de extensão para transferir a tecnologia gerada nas universidades e institutos de pesquisa. De qualquer forma, segundo o professor, já existem alguns fungos e bactérias usados para o controle biológico presentes em mais de 5 milhões de hectares, em culturas como a soja.

Ele destaca ainda que os resultados obtidos pelo controle biológico contra a lagarta Helicoverpa armigera fizeram as pessoas do ramo “despertar” para a eficiência dessa técnica.  “A mudança se deve à dificuldade em controlar a praga com métodos químicos e a possibilidade de controlá-la com métodos biológicos”, exemplifica.

Adubos verdes
Uma técnica capaz de auxiliar a produção orgânica é o cultivo de uma planta que serve de adubo para outra. Isso pode ser feito no espaço entre as “ruas” da cultura de interesse, como no vão que sobra entre os pomares de frutas ou na entressafra de cultivos anuais, como soja, milho, sorgo, algodão, entre outros, quando não há nenhum cultivo no solo.

Diversas plantas podem ser usadas, mas há preferência para as leguminosas, já que elas têm a capacidade de fixar nitrogênio direto da atmosfera.  Essa técnica é conhecida como adubação verde, explica Edmilson Ambrosano, pesquisador da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA).

Entre as vantagens da adubação verde, Ambrosano destaca a redução de custo com adubos nitrogenados e com controle de ervas daninhas e nematóides (vermes), já que essa técnica permite diminuir a incidência de pragas e fixar o nitrogênio no solo. 

O aumento da capacidade de armazenamento de água, a descompactação, a aeração do solo e a proteção contra a erosão também são benefícios da adubação verde.

Na cana-de-açúcar, um dos maiores cultivos do Brasil, Ambrosano comprovou com pesquisas que a adubação verde pode substituir completamente o uso de adubos de nitrogênio químico, possibilitando ganhos econômicos. 

“Outros pontos positivos são a rápida cobertura do solo e grande produção de massa verde em curto espaço de tempo, recuperação de solos de baixa fertilidade e redução da incidência de ervas daninhas e pragas”, diz. “Culturas como a cana e a laranja têm ampliado o uso da adubação verde, já que está comprovado o efeito benéfico ao solo, ao equilíbrio das pragas e à renda”, comenta.

De família
Desde que era criança, no interior de Santa Catarina, Moacir Darolt teve contato com o cultivo de alimentos sem o uso de agrotóxicos, feito pelos pais. Depois de quase cinquenta anos, sua família continua com esse pedaço de terra, trabalhando com os mesmos métodos. Os anos passaram e Moacir teve que escolher uma faculdade: a vivência da infância o fez optar pela engenharia agronômica.

Depois, concluiu doutorado em meio ambiente e desenvolvimento rural, na França. Tornou-se professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e, desde 1992, trabalha no Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR) na área da produção orgânica de alimentos, assunto sobre o qual já escreveu livros.

O pesquisador diz que cerca de 1,5% da produção brasileira de alimentos é orgânica e estima-se um crescimento entre 20% e 30% ao ano nesse ramo. “O mercado de alimentos orgânicos é um dos que mais cresce em âmbito mundial, comparando-se ao crescimento da indústria da informática”, comenta Moacir Darolt.

Darolt explica os motivos: “a conscientização do consumidor, o aumento do número de produtores, o aumento da oferta em diferentes canais de comercialização, a maior diversidade de produtos e a crescente divulgação pela mídia”, enumera Moacir Darolt. 

O engenheiro agrônomo conta que entre 70 e 80% do que é produzido pelo Brasil em alimentos orgânicos vai para exportação. “Do volume exportado, a maior parte segue para países da Comunidade Europeia, com destaque para a Holanda, Suécia, França, Reino Unido e Bélgica”.

No mundo
Segundo a Federação Internacional dos Movimentos de Agricultura Orgânica, há dois milhões de produtores orgânicos no mundo, espalhados em 170 países com áreas certificadas. Mais da metade desses países já têm uma legislação avançada para o tema, diz Darolt.

Uma dessas nações é a França, onde Moacir estudou. Ele conta que a legalização da agricultura orgânica na França aconteceu nos anos de 1980 e, no Brasil, nos anos 2000. “O número de instituições de pesquisa que trabalham com o tema na França é maior. Os consumidores são mais conscientes dos problemas dos agrotóxicos e problemas ambientais e os agricultores recebem maior apoio do governo francês para entrar no sistema orgânico”.




Segundo ele, a União Europeia tem trabalhado com metas de conversão de pelo menos 20% da área agrícola para o sistema orgânico nos próximos 10 anos. “A combinação de políticas e ações governamentais de desenvolvimento rural associado ao incentivo e apoio à transição agroecológica nas áreas de ensino, pesquisa, extensão e empresas é o grande diferencial em relação ao Brasil”, compara. “Ainda falta muita pesquisa, assistência técnica e formação de pessoal qualificado para atuar no sistema”, avalia Darolt.

Desafios
Moacir Darolt diz que a faltam pesquisas, assistência técnica e formação de profissionais capacitados para atuar no setor. “No campo, o controle de plantas invasoras ainda é o grande entrave para pequenos, médios e grandes produtores, pois são impedidos de usar os herbicidas e gastam mais com mão de obra, o item mais oneroso no custo dos orgânicos”.


Mas, existem outros fatores associados que encarecem o produto final, como a menor produtividade e a baixa escala de produção, complementa Darolt. Os custos adicionais da certificação e a falta de tecnologias apropriadas como sementes adaptadas, fertilizantes orgânicos de fácil utilização e maquinários adaptados a pequenas áreas são também destacados como alguns entraves. 


“É preciso haver benefícios diferenciados e motivadores para os agricultores fazerem a transição. Mudar é possível, dependerá da vontade política e pressão dos consumidores para que se aumentem os investimentos em pesquisa, ensino, assistência técnica e empresas que estejam dispostas a trabalhar dentro de um novo modelo de agricultura verdadeiramente sustentável”, afirma.

A produtora de orgânicos e feirante Neida Carrasco viveu as dificuldades da conversão na pele. Ela nunca gostou de usar agrotóxicos por “medo”. No início, tinha muitas dúvidas, mas não desistiu. “É uma luta, tem que ser teimoso. Só quem tem amor pela terra para não desistir. Já cheguei a perder a produção toda”. 


Hoje, ela é reconhecida na cidade de Bauru-SP como uma das principais produtoras de orgânicos da região. Teve apoio de empresas, pesquisadores e instituições. Fez mais de 20 cursos do Sistema Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e continua aprendendo na prática.


O que mais atrapalha, segundo ela, é dizer que os produtos são caros. “A dedicação é muito grande. Quem é mãe vai me entender: é igual cuidar de um recém-nascido. Para um produtor, como eu, que era convencional e vim para o orgânico, precisei arregaçar as mangas e não ter dia e nem hora para trabalhar”. 


Para quem acha que o preço é alto, ela faz um convite: “Passe um dia em uma horta de orgânicos para ver o trabalho árduo de quem planta. Tem que olhar o preço, mas entender o porquê de poucas pessoas plantarem orgânicos”, diz. Apesar das dificuldades, Neida está plenamente satisfeita: “Eu não volto mais para trás. Às vezes olho para minha horta e falo: se eu não plantasse, não acreditaria que são produtos orgânicos”.
   
Certificação
O engenheiro agrônomo Iniberto Hamerschmidt, coordenador estadual de olericultura (cultivo de hortaliças) do Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural(Emater-PR), conta que o estado é o que mais tem produtores orgânicos no Brasil e produz 130 mil toneladas de alimentos desse tipo por ano.


Com 41 anos de experiência no ramo, Iniberto comenta que, para se converter em orgânico, o agricultor familiar paranaense pode recorrer à assistência técnica gratuita através da EMATER e fazer a certificação de sua propriedade através do Programa Paranaense de Certificação de Orgânicos,  executado gratuitamente pelo Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar).  


“Além da assistência técnica e certificação, existe o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) Agroecologia, que oferece financiamento com juros subsidiados aos produtores orgânicos”, acrescenta. Além da certificação do Tecpar, o agricultor familiar pode recorrer à certificação participativa da Rede ECOVIDA, cujos custos são acessíveis ao pequeno produtor.


O período de conversão é o mais difícil, diz Moacir Darolt, fazendo uma comparação: “É como abandonar um vício. Num primeiro momento, a planta não responde sem o apoio químico. Solo e meio ambiente estão debilitados, dificultando a nutrição e a defesa natural da planta. A conversão leva em média de três a quatro anos, até que a terra recupere seu equilíbrio e volte a ter boa produtividade. As certificadoras concedem prazo máximo de quatro anos para a conversão”, salienta.


Comercialização
Existem reclamações de que o preço dos produtos orgânicos é mais caro. Muitas vezes é. Mas essa diferença de preço nem sempre vai para os produtores. “Em pesquisa que realizei há alguns anos, percebi que na mão das grandes cadeias de supermercados os pequenos agricultores ficam em desvantagem, tendo dificuldades de negociação e venda dos produtos orgânicos a preços justos e, do lado dos consumidores, os preços de compra dos orgânicos são, muitas vezes, abusivos”, diz Moacir Darolt.

E diz mais: “Em média, a cada R$ 1,00 que o consumidor paga por um produto orgânico no supermercado, 33 centavos ficam com o atravessador, 38 com o supermercado e 29 com o produtor”. Para superar esse problema, Darolt sugere vendas em feiras, entregas de cestas de produtos via internet, vendas na própria propriedade ou em programas de governo como a merenda escolar.


Entretanto, se o consumidor escolher o local certo para a compra, poderá pagar menos, explica Iniberto Hamerschmidt, do Emater, referindo-se às feiras orgânicas, onde o produtor vende diretamente para o consumidor. “Se a compra for feita em supermercados ou lojas especializadas, o preço pode ser 100% até 200% maior. Em Curitiba temos 12 feiras orgânicas que ocorrem durante a semana e no Paraná são 70 feiras que vendem produtos orgânicos. Em alguns lugares, é possível comprar até sem diferença de preço em relação ao convencional”, afirma.  

   
Educação


Quando falamos em sustentabilidade temos que pensar nas gerações futuras e, por isso, também nas escolas do ensino fundamental e no público infantil, lembra Moacir Darolt. Por isso, o pesquisador decidiu elaborar uma cartilha chamada “Mundo Orgânico”, direcionada às crianças.


“Resolvi transformar os conteúdos mais acadêmicos e técnicos em material didático que pudessem ser adaptados para uma linguagem infantil com o objetivo de explicar o que é a agricultura orgânica, a alimentação saudável e como pode ser aplicada nas escolas e no dia a dia dos alunos”, diz o pesquisador.  

Força para os consumidores
Moacir Darolt diz que os consumidores devem participar mais do processo alimentar. “Afinal de contas, todos os dias estamos comprando e levando à mesa algum produto. A maioria não conhece a procedência do que está comendo. A maior parte dos consumidores e também produtores abastece a sua cozinha em um supermercado, com alimentos prontos e altamente processados, num distanciamento cada vez maior entre quem produz e quem consome”, resume o pesquisador do IAPAR.


Ele comenta que muita gente não sabe que diversos derivados de milho e soja consumidos no país já são transgênicos. “A letra “T” em um triângulo amarelo (indicando presença de pelo menos 1% de ingredientes transgênicos) não tem sido eficiente para informar os consumidores. Mesmo em relação a outros alimentos consumidos cotidianamente como hortigranjeiros, a maioria dos produtos a granel não é identificada em relação ao local de origem. Numa cadeia longa, a identidade do alimento (quem produziu? como e onde foi cultivado?) se perde, de modo que a única informação comunicada entre consumidores e produtores é o preço”, sintetiza.

Esse texto foi publicado no WebJornal da Universidade Estadual Paulista  

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