Como funcionam os cursos do Pecege/Esalq?

Paulo Palma Beraldo
Foto: Portal Next/Divulgação

O entrevistado de hoje é o engenheiro agrônomo Pedro Valentim Marques. 

Pedro formou-se em 1973 na Esalq, em Piracicaba. E é professor na instituição desde 1986. Poucos meses depois da graduação, entrou na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), onde permaneceu 12 anos. 

Trabalhou na Embrapa Suínos e Aves, com sede em Concórdia-SC. Aprendeu muito sobre agricultura familiar na região, sobre a eficiência e o máximo aproveitamento de espaços que alguns produtores atingiam, obtendo rendas elevadas em pequenos espaços. 

Naquela época, a Embrapa investiu na formação e capacitação de agrônomos, veterinários e outros profissionais do campo nas principais universidades do Brasil e do mundo. Pedro fez mestrado, doutorado e pós-doutorado por esse programa. 

"Era um dos maiores programas de formação de pessoas do mundo. Muito do que temos do agronegócio hoje foi consequência do trabalho da Embrapa”. 

Pecege
Pedro criou em 1986 o Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas, o Pecege, ligado ao departamento de Economia, Administração e Sociologia. O Pecege oferece treinamentos e cursos e  desenvolve projetos de pesquisas relacionados ao agronegócio. Alguns são cursos e outros são de maior duração. 

Os cursos abrangem temas variados como pecuária leiteira, ovinocultura, produção de forragem, além dos MBAs em Agronegócios, Agroenergia, Marketing e Gestão de Negócios. 

- Atualmente temos uma equipe de 30 pessoas no Pecege, além de 60 professores na equipe, 200 monitores atendendo alunos. Mais de 10 mil alunos já passaram pelo Pecege - conta o professor. 

Veja abaixo os melhores trechos da entrevista. 

Como surgiu o Pecege? E quais as principais dificuldades para criar uma empresa privada em uma universidade pública? 
Eu vim para a Esalq em 1986. Vi que naquela época a escola já era uma potência em agricultura. Mas nós tínhamos muita dificuldade em levar nosso conhecimento para fora. Comecei a fazer alguns treinamentos. Primeiramente em Piracicaba, depois na Bolsa de Mercados Futuros, em São Paulo. Em 1999, fizemos o nosso primeiro MBA.

Dentro da universidade, não existia uma posição sobre a importância de levar o conhecimento lá para fora e atrair a sociedade para dentro da universidade. Isso demanda trabalho. Mostrar o que estamos fazendo. E melhora nossos professores e alunos. Com isso, os alunos convivem com pessoas diferentes, com bagagem no mercado.

E agora, como o senhor vê essa percepção?
No começo, sofri muito para dar esses treinamentos. Até que nos últimos anos, a universidade começou a reconhecer a importância desses treinamentos, da iniciativa privada aqui dentro. 

As pessoas têm que ser muito boas para falar sobre custo de produção de soja para um produtor de soja. Como se montam operações, como são construídos os preços. É preciso ter muita qualidade. 

Estou notando uma valorização muito grande da universidade atualmente. Levou anos até vencermos essas barreiras. Não tínhamos capital. Até montar uma estrutura que aguente solavancos, é difícil. 

Ainda assim estamos longe de concorrer com alguns programas privados, que investem muito em marketing, publicidade. Mas temos um programa muito bem estruturado. De muita qualidade.

No começo dávamos aula em Cuiabá, Maceió, Curitiba. Mas começou a ficar muito caro, passagens aéreas flutuam muito. Às vezes o curso não se pagava. E se o curso não se paga, a gente tem que tirar do nosso bolso. 

Aí surgiu a ideia de montar os cursos a distância. Discutimos demais, que sistema usar. E chegamos no modelo que temos hoje. Temos mais de 2.000 alunos no Brasil inteiro.

Foi uma história que nos permitiu a esse ponto. Temos tudo muito bem montado. Totalmente digitalizado, provas, presenças, material, departamento financeiro.  Então a estrutura atual é muito boa. Nosso programa de agronegócios, por exemplo, posso falar que é o melhor do Brasil. 

Devagar, a Esalq já está sendo reconhecida como um centro de excelência. Estamos abrindo outros cursos. Está sendo reconhecida não como um centro agrícola, mas como um centro com professores da melhor categoria, especialistas em marketing, gestão de negócios. Vamos montar um curso, por exemplo, para gestores de escolas, voltado para diretores do Brasil todo. Temos muito projetos para serem lançados. 

O Pecege é uma iniciativa privada, apesar de ser da USP. A universidade tem três pontos: pesquisa, ensino e extensão. O que é extensão? Levar o conhecimento daqui de dentro e trazer as pessoas de fora para aqui dentro. A universidade não põe dinheiro nenhum no Pecege. Temos que ser autossuficientes. 

O curso deve se pagar, desde o professor até a passagem de avião. Tudo está incluído no custo. Claro que também colocamos alguma porcentagem nesses cursos. Um pouco vai para a universidade, o professor também recebe. 

É uma forma de trazer recursos para dentro da universidade, especialmente a USP que está passando por uma situação financeira ruim. Ao mesmo tempo, podemos alavancar o contato com empresa. Colocar nosso aluno em contato com o mercado. 

Por exemplo os monitores. Um aluno fica sempre ali orientando os alunos. O cara tem que ser bom para estar ali. E acaba aprendendo muito. Chamo sempre atenção para que nosso programa tem esse papel de trazer o conhecimento para cá, treinamos nossos alunos, melhoramos a qualidade dos professores e chegam recursos para a universidade. 

Quais são as principais atividades do Pecege? 
Nós temos dois tipos de atividades. Uma que são os cursos e treinamento. Os treinamentos podem ser moldados para as empresas, como por exemplo Banco do Brasil, Basf, Syngenta.

Empresas que vêm aqui, nos contratam e pedem um curso nos seus moldes. O treinamento, em sua maior parte, é feito a distância. O aluno assiste a aula de onde ele estiver via Internet. E aí no encerramento marcamos um treinamento mais intensivo aqui na Esalq, porque é muito oneroso fazer as pessoas se deslocarem até aqui, perder dias de trabalho, pagar diárias de hotel entre outras coisas. 

Temos professores daqui da USP e muitos de fora, de empresas. Fazemos essa mistura. É um curso prático sem deixar de lado a fundamentação teórica. Queremos que o aluno aprenda no sábado e use na segunda-feira. São cursos com formação específica para ser usado no trabalho da pessoa.

Como funciona a divulgação dos cursos? 
Nós estamos continuamente procurando novos contatos. Temos uma equipe de marketing que entra em contato com empresas, jornais, TVs. O nosso objetivo é chegar às grandes empresas. Muitos cursos privados investem pesado em marketing e publicidade. Nós não temos os recursos para isso. 

Nossa melhor forma de divulgação é o boca a boca. Alguém que fez o curso, contou para um amigo e ele veio. E assim vamos crescendo. Fazemos muitas parcerias com cooperativas, associações, empresas. Estamos constantemente buscando canais. 
Nunca seremos um curso que vai ser divulgado em banca de jornal. O aluno que nos interessa é aquele que quer crescer na empresa. Então é muito bom se a pessoa vir dentro de uma empresa, com uma responsabilidade. Por isso, nossa divulgação é voltada para empresas. Porque aí também podemos fazer pacotes. 

Como funcionam os cursos a distância?
As aulas do curso a distancia são ao vivo, as pessoas podem fazer perguntas, fazem provas a distância. Mas ele deve defender seu trabalho de conclusão aqui na Esalq. 

Fazemos um evento aqui duas vezes por ano, o SIM, Simpósio de Agronegócio. A ideia é o aluno agendar o dia e a hora nessa época para defender sua monografia em uma data coincidente com a do SIM. 

O aluno vai conhecer a Esalq, seus professores, orientadores. Então ele vai se sentir um ex-aluno da Esalq. Quando a pessoa compra um curso, acredito que ela compra conhecimento, bom material, bons professores, um bom café da manhã, classes limpas entre outras coisas. 

É uma experiência. Temos que fazer o melhor possível. Temos alunos que viajam mais de 1.000 quilômetros para chegar aqui. Alguns já vieram de outros países. É uma frustração muito grande se essa pessoa não for bem atendida. 

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