Entrevista com Rubens Niederheitmann, presidente do Emater-PR

Paulo Palma Beraldo
Foto: cedida pelo entrevistado

O De Olho no Campo entrevista hoje o engenheiro agrônomo Rubens Niederheitmann, presidente do Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater). 

Rubens trabalha com extensão rural desde 1979. E atua no Emater há mais de 35 anos. Atualmente Rubens preside a instituição, com aproximadamente 1.300 funcionários espalhados por 395 (de um total de 399) cidades paranaenses. 

O Paraná tem 330 mil propriedades rurais, das quais 90% pertencem aos agricultores familiares. 

Rubens já participou de programas importantes para o setor como o Fábrica do Agricultor, que incentiva a industrialização da produção dos agricultores familiares visando o aumento da renda e melhoria na qualidade de vida.  

Um projeto de sucesso do Emater é o Projeto Centro Sul de Feijão e Milho, parceria da entidade com a multinacional Syngenta e a Embrapa. Existente há 26 anos, existem 138 unidades de referência espalhadas pelo estado. Mais de 11.100 agricultores já foram beneficiados por ele, conta Rubens. 

Nas áreas de milho, a produtividade vai de 8.428 kg/ha de média, com máxima de 12.190 kg/ha. E a de Feijão 2.244 kg/ha de média, com máxima de 3.830 kg. 

- A extensão rural no Paraná tem buscado se adequar e ampliar a sua contribuição ao desenvolvimento rural do estado. A agricultura e o meio rural vem mudando rapidamente. A população rural caiu drasticamente.  É preciso intensificar “novos” negócios para geração de oportunidades que propiciem a permanência dos jovens no meio rural. Além disso, a produção agrícola se intensificou. A tecnologia e os aspectos financeiros assumiram grande importância - diz Rubens Niederheitmann. 

Confira a seguir a entrevista. 

Como é o trabalho do Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER) do Paraná? 
A extensão rural oficial no Paraná é executada pelo Instituto EMATER e tem como missão contribuir para o desenvolvimento rural sustentável executando e articulando a assistência técnica e extensão rural em benefício da sociedade paranaense. 

Tendo essa missão como grande balizador de nossas ações, procuramos zelar para que isso  seja realizado cada vez com mais qualidade. Neste sentido, nosso empenho na presidência é para que os recursos, estratégias metodológicas e articulações institucionais viabilizem as condições necessárias para que o trabalho aconteça sempre em sintonia com as diretrizes governamentais e com as demandas da sociedade como um todo. 

Quais as principais dificuldades enfrentadas pela empresa no seu dia a dia? 
A maior dificuldade tem sido atender a grande demanda sobre a instituição, uma vez que temos a demanda dos agricultores por assistência técnica, a demanda oriunda dos programas e políticas públicas que exigem grande esforço para sua aplicação correta, além de demandas institucionais, de entidades parceiras e outras. 

Vale frisar que quase a totalidade das políticas públicas federais ou estaduais voltadas ao público rural e em especial à agricultura familiar são executadas pela extensão rural oficial dos estados, pois o governo federal não tem estrutura para a execução nos municípios. 

Por este motivo, um dos papéis definidos por ocasião do planejamento estratégico “EMATER do Futuro”, é o de articulação e coordenação da ATER – Assistência Técnica e Extensão Rural. 

Isso porque entendemos que assim poderemos ampliar o número de beneficiários trazendo para a parceria as demais Instituições privadas que fazem ATER dentro de um plano estadual de desenvolvimento rural. 

Como o senhor avalia o papel da Emater na expansão do acesso à informação, às inovações tecnológicas e às políticas públicas por parte dos agricultores familiares no Paraná?
O EMATER tem sido, ao longo de seus 58 anos de existência no Paraná, um grande instrumento facilitador do processo de desenvolvimento do meio rural e da agricultura paranaense. 

Presente em todos os momentos da nossa história, atuando junto dos agricultores, servindo de ponte entre a pesquisa e os agricultores e sempre ao lado do agricultor buscando seu fortalecimento através da sua organização. 

As características da extensão vão além da assistência técnica, pois é um processo educativo informal de longo prazo que tem como preocupação principal a família rural e o ambiente em que está inserido. 

Neste sentido, as políticas públicas e a assistência técnica bem como a adoção das inovações tecnologias são elementos fundamentais para os avanços pretendidos. No campo das políticas públicas a extensão pela sua capilaridade e conhecimento da realidade é fundamental para que os recursos sejam aplicados de forma correta e sinérgica. Os avanços sociais são o objetivo principal. 

A assistência técnica é fundamental para que os resultados econômicos e ambientais sejam alcançados, sem os quais o agricultor não melhora sua renda e conseqüentemente não consegue dar melhores condições de vida à sua família. 

Apenas a difusão de tecnologia não resolve. A preocupação deve ser a adoção desta tecnologia pelo agricultor e este é um processo complexo que somente a visão extensionista pode trazer. E este papel o EMATER tem cumprido ao longo de sua existência.

O Paraná tem diversas cidades com economia baseada na agricultura. Como a Emater trabalha para aumentar a geração de riquezas nessas áreas? Poderia citar um exemplo do que vem sendo feito e onde? E de projetos futuros também?
A linha básica tem sido a ação em projetos de aumento da produtividade nos negócios agrícolas tradicionais com foco no aumento da renda das famílias. 

A outra abordagem é introduzir ou intensificar de forma organizada em projetos/atividades/negócios com valor agregado maior. 

Para exemplificar, temos no primeiro caso o leite, com projetos regionais como o Projeto Vitória, abrangendo a região norte do estado com ênfase na gestão da propriedade leiteira. Ainda no primeiro caso, temos  um convênio com a Cooperativa Castrolanda. Grupos de pequenos agricultores nesse projeto cooperativo  receberam acompanhamento de extensionistas do EMATER em termos de produtividade e qualidade. 

Depois de 8 anos a produção destes agricultores, com média de 50 litros/dia, passou para mais de 500 litros dia por agricultor. Esses produtores têm destaque ainda na qualidade, recebendo valores diferenciados. A cooperativa viu nestes pequenos um potencial de crescimento. 

Em outro caso, temos projetos de banana no vale do rio Paranapanema, citros de mesa na região norte, e olericultura (produção de hortaliças) no oeste do estado, onde a atuação na forma de projetos cooperativos foi decisiva para  a agregação de valor.

Para o futuro está previsto a ampliação destes  projetos e ampliar ações em cadeias como madeira, peixes e pólos de ovinos entre outras.

O projeto Centro-Sul de Feijão e Milho foi criado há mais de 20 anos e já capacitou milhares de agricultores familiares. Como funciona a parceria entre o Emater, o Instituto Agronômico do Parana (Iapar), empresas privadas e os agricultores familiares? Quais os próximos passos desse projeto?
Os agricultores familiares normalmente têm áreas pequenas. O crescimento da renda nestas situações fica restrito por esta área. 

Então, a primeira etapa é aumentar a produtividade e a renda mas, principalmente, propiciar condições de conhecimentos e habilidades técnicas e familiaridade com tecnologias para que possam entrar em atividades com maior densidade de renda, mas que demandam tecnologias mais aprimoradas. Este raciocínio deu início ao projeto. 

Desde a concepção inicial, buscou-se a soma de conhecimentos. O envolvimento com a pesquisa e a iniciativa privada trouxe ganhos muito expressivos pois os agricultores e técnicos envolvidos tinham e têm contato com o que há de mais atual em termos de tecnologia para as culturas de milho e feijão. 

Atualmente, a extensão, a pesquisa e a iniciativa privada planejam, executam, avaliam e reprogramam ações em propriedades referência, dias de campo e encontros anuais. Isso tem permitido ganhos crescentes.

Os próximos passos são estabelecer uma conexão mais consistente com os mercados atacadistas e redes de supermercados, avançando desta forma para “fora da porteira”, introdução planejada nas propriedades de outras atividades com maior densidade de renda e fortalecimento da organização para melhorar as relações na cadeia produtiva.

Existem projetos semelhantes em andamento no estado direcionados para outras cadeias produtivas? 
Existem vários projetos que envolvem outras  cadeias produtivas como a carne bovina e ovina com as cooperativas de produtores de gado de corte e ovinocultores visando carne de qualidade.

Na área de grãos, temos o projeto Plante seu futuro cujo objetivo é a retomada do Manejo integrado de pragas e doenças, do manejo integrado de solos e água e ainda o combate às formigas cortadeiras. 

No primeiro ano deste projeto, foi possível comprovar que o uso de tecnologias de manejo integrado de pragas e doenças pode reduzir em até 50% o número de aplicações de inseticidas e fungicidas, o que possibilita menos resíduos no meio ambiente e menor custo de produção. Basta para isto que haja uma acompanhamento contínuo das propriedades.

Na área de hortaliças, há projetos de fomento na região oeste visando a geração de renda e a oferta de alimento seguro tanto no mercado convencional quanto no mercado institucional (Programa de Aquisição de Alimentos e Programa Nacional de Alimentação Escolar). Na parte de frutas, temos uvas no sudoeste e banana e citros no norte pioneiro.

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