A busca por herbicidas de base natural

Estudos desenvolvidos pela Embrapa Meio Ambiente apontam que plantas como a Imperata cylindrica (também conhecida como grama-de-sangue) possuem compostos que inibem o crescimento de outras plantas. 

Extraídos por solventes, esses compostos serão testados em diferentes concentrações para se verificar o nível de eficácia. As pesquisas buscam combater a evolução da resistência de pragas e doenças aos pesticidas.

Antônio Cerdeira, da Embrapa Meio Ambiente, explica que a Embrapa não busca criar novos herbicidas. A tarefa inicial é isolar biocompostos de plantas específicas, com potencialidade herbicida. 

O resultado final esperado é o desenvolvimento de modelos para a criação de novos herbicidas naturais por indústrias químicas. Herbicidas, diga-se, eficientes, menos persistentes no ambiente e menos tóxicos que os produtos comerciais atualmente disponíveis no mercado.

Atualmente plantas daninhas resistentes ao controle com herbicida avançam em áreas de campos cultivados no Brasil e ameaçam o vantajoso sistema de plantio direto, principalmente em lavouras de soja e milho. 

A monocultura e o uso contínuo de uma única formulação de herbicida, por décadas, têm contribuído para a seleção natural de biótipos de plantas resistentes ou tolerantes, que infestam os campos e influenciam negativamente a rentabilidade nas lavouras.

As plantas invasoras que mais preocupam os pesquisadores são a buva (Conyza bonariensis e Conyza canadenses), o azevém (Lolium multiflorum) e o capim-amargoso (Digitaria insularis)  que possuem alto poder de disseminação. 

Uma única planta de buva, por exemplo, pode produzir até 200 mil sementes com características e estruturas de fácil dispersão pelo vento, o que a caracteriza como espécie agressiva quanto à infestação. A planta pode interferir na produtividade e, consequentemente, na lucratividade da lavoura, de modo bastante expressivo.

Infestações, mesmo em menor grau, da ordem de seis a dez indivíduos por m²/ ha, por exemplo, correspondem a meia tonelada de grãos a menos na balança. A conta é simples, quanto mais plantas invasoras no terreno, menor é a produtividade.

Antonio Luiz Cerdeira, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, acredita que produzir grãos será uma tarefa que envolverá cada vez mais trabalho e recursos. "Podemos estar deixando de lado a praticidade do plantio direto, com uso de único herbicida no controle de plantas daninhas, por um sistema mais complexo, trabalhoso e oneroso para se produzir grãos", explica. Para ele, o agricultor precisa entender que acabou o tempo em que se deixava o mato crescer e, quando era conveniente, aplicava-se o herbicida "e, como num passe de mágica, resolvia-se a questão".

Programa de pesquisas
O alto grau de interferência de certas plantas, por concorrência de recursos naturais com plantas vizinhas (água, luz e nutrientes), as tornam vilãs das áreas de cultivo. Chamadas popularmente de plantas daninhas, infestam áreas de cultivo, interferindo na produção de alimentos.

Por décadas, o glifosato foi tratado como o herbicida químico mais eficiente e bem-sucedido do mercado no controle de plantas indesejáveis. O que antes era a solução definitiva na agricultura, hoje não possui a mesma eficiência. O momento é de encontrar novas alternativas para enfrentar  plantas invasoras resistentes.

A Embrapa Meio Ambiente (SP) e a Embrapa Soja (PR) desenvolvem pesquisas em conjunto para descobrir compostos com potencial de ação herbicida e aproveitamento de alelopatia - a capacidade de as plantas introduzidas em um determinado ambiente influenciarem as plantas que lá estão. 

Conceitualmente, são compostos químicos que a planta exsuda ("transpira"), e que são capazes de interferência no crescimento de outras plantas. Além das pesquisas com alelopatias, são realizados manejos alternativos, com controle químico e cultural de plantas daninhas.

O trabalho se integra a um sistema mais amplo de pesquisas, o Sustensoja – Estratégias integradas para geração de tecnologias para a sustentabilidade da cadeia produtiva da soja.

Segundo Dionísio Gazziero, da Embrapa Soja, é possível obter respostas sobre  os efeitos alelopáticos de um determinado componente dentro de condições diversas de solo e clima, por exemplo, ou dentro de determinado programa. "Verificada, em campo, a suspeita de efeitos alelopáticos inibidores de determinada planta, são feitas avaliações em laboratório. Uma vez validado o padrão de efeito, os compostos serão testados no campo", explica.

A pesquisa inclui avaliações para o ambiente da integração lavoura-pecuária-floresta e sistemas com outras culturas, nos quais a soja é um dos componentes. Isso possibilita determinar o grau de interferência que a floresta exerce na lavoura, seja por questões físicas ou interferência alelopática.

Investimentos em equipamentos de pesquisa

Segundo Celso Manzatto, chefe-geral da Embrapa Meio Ambiente, o momento exige esforços, tanto de se conter o avanço da invasão de plantas resistentes nas lavouras, quanto na proposição de novos conceitos de controle, apoiados em pesquisas científicas. 

Segundo ele, a resposta da Embrapa a esse desafio, em um primeiro momento, baseou-se no envio dos pesquisadores Sônia de Queiroz e Lourival Paraíba ao exterior, para entrar em contato com os estudos internacionais que se desenvolviam em outras instituições. Em um segundo momento, a preocupação foi arregimentar parcerias científicas em nível nacional e internacional.

Manzatto destaca a aquisição, pela Embrapa, de equipamentos de tecnologia de ponta para aplicações de captura e processamento de imagens. Eles permitem avaliar bioensaios que visam ao descobrimento de compostos para uso na agropecuária. "Composto por sistemas de hardware e softwares, sensores e câmeras, nosso laboratório transformou-se em modelo na exploração da diversidade microbiana e também como depósito de recursos microbianos", diz o pesquisador.
 Fonte: Marcos Vicente/Embrapa Meio Ambiente
Foto:  Dionísio Gazziero

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