Jornalistas publicam livro sobre o rodeio no Brasil

Além dos Oito Segundos retrata a realidade de um esporte que encanta milhões de pessoas no Brasil e no mundo

Os autores do livro são Alisson Lopes e Thaís Perregil, que apresentaram a obra como seu Trabalho de Conclusão de Curso. Foram realizadas mais de 50 entrevistas com personagens que vivem ou viveram esse mundo de perto, de juízes a peões, locutores, comentaristas, organizadores de eventos, veterinários entre outros.  

Alguns entrevistados de destaque são Beto Lahr, presidente e fundador do rodeio de Americana; 'Seu Zequinha', um dos fundadores do rodeio de Barretos; Esnar Ribeiro, um dos primeiros peões de touro do Brasil; Tião Procópio, primeiro peão brasileiro a ir montar nos Estados Unidos e o pioneiro em usar os equipamentos para montaria nesses animais no  Brasil; Adriano Moraes, primeiro peão a ser tricampeão mundial; Zi Biasi, uma das personalidades mais antigas do rodeio, responsável por difundir a festa do peão para grande parte do interior do Brasil.  

Segundo eles, existe preconceito contra o rodeio no Brasil. Muito do que se fala não procede. E essa foi justamente uma das motivações da pesquisa.  

- Durante nossas pesquisas vimos que peões, comissões de festas, comitivas e as pessoas que fazem o rodeio lutam para combater este estigma e estão muito acessíveis a mostrar o mundo do rodeio - contaram ao De Olho no Campo. 

Eles explicam, no entanto, que existem situações a serem combatidas, como os maus tratos aos animais, mas afirmam: "antes de ter preconceito com esse esporte típico do interior brasileiro e reproduzir frases feitas, é bom conhecer esse grande universo".

Lei e polêmica
O tema ainda é cercado de polêmica. É cada vez maior a luta contra os maus tratos dos animais. Na Espanha, por exemplo, ativistas tentam acabar com as touradas. Os jornalistas se depararam com esse assunto durante a produção do livro.

A lei que regulariza rodeios, sancionada em 2002 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, disciplina o uso do sedém - corda que aperta a virilha do animal - e da espora, sem no entanto impedir sua utilização. Alguns defendem que o sedém só machuca os animais se forem mal produzidos ou se a pressão colocada for muito forte. 

A Lei do Rodeio estipula também que um veterinário deve cuidar da segurança dos animais e uma ambulância esteja presente para cuidar de eventuais ferimentos nos peões. 

E o rodeio age para melhorar a situação dos animais. Em Barretos, por exemplo, existe o Centro de Estudos do Comportamento Animal, o Ecoa. Esse centro analisa os animais antes e depois das provas, fornecendo laudos científicos. 

Durante a produção do livro, Alisson e Thaís acompanharam três campeonatos: PBR, Top Team e a Rozeta. "Nas nossas pesquisas, nós não vimos nada de errado. Tudo foi dentro da Lei do Rodeio. Por isso, é importante que as pesquisas continuem e que sejam criadas mais leis que regularizem o esporte", dizem os jornalistas. 

- Depois de todas as entrevistas, percebemos que há estudos sérios e que buscam o bem estar dos animais. E há campeonatos responsáveis que têm seus veterinários para fiscalizar os animais e como são tratados, já que caso o animal não esteja saudável ele não pode participar da competição. Porém, como dito também em nossas entrevistas e registrado nos livros, há rodeios menores e clandestinos que não respeitam as leis e normas de bons tratos aos animais, como sempre há exceções e acreditamos que essas atitudes tem que ser combatidas. Muitos rodeios têm o brete, local aonde ficam os animais antes e depois as montarias, aberto para quem quiser conhecer.

A seguir uma entrevista com os jornalistas. 

Como surgiu a ideia de fazer um trabalho de conclusão de curso a respeito do rodeio? 
Nós já gostávamos e frequentávamos rodeio antes de ter essa ideia. Mas no fim do terceiro ano da faculdade em uma brincadeira um amigo nosso comentou que a gente podia escrever um livro sobre rodeio, de tanta festa que já tínhamos ido. 

Gostamos da ideia e quando pesquisamos encontramos pouco material sobre o tema e decidimos então encarar o desafio.

Alisson e Thaís participaram de vários rodeios divulgando o livro, que pode ser comprado
por 50 reais. (Arquivo dos autores)
Durante o processo, quais foram as principais dificuldades encontradas? 
A parte mais difícil foi conciliar as aulas da faculdade com as festas de rodeio e as entrevistas, principalmente porque tínhamos que fazer muitas viagens para diferentes cidades. Outra dificuldade foi a falta de registro do rodeio brasileiro, houve muita divergência de informação entre os entrevistados sobre datas e autoria de feitos no mundo do rodeio.

Existe pouco material literário sobre esse o rodeio. A que vocês atribuem essa realidade? 
A cultura do rodeio brasileiro é fundamentalmente falada, passada de um para o outro e, por isso, muitos fatos se alteram pelo tempo, como um telefone sem fio. 

Por isso, é difícil criar uma história do rodeio, pois cada pessoa tem sua versão dos fatos. Soma-se a isso um público do universo do rodeio que não tem hábito de leitura. 

E como as pessoas desse ramo receberam vocês com a ‘novidade’ de fazer um livro sobre o trabalho deles?
Durante a produção do livro, os entrevistados ficaram bastante entusiasmados com a ideia do livro, de um documento sobre a história do rodeio. Todos foram muito solícitos conosco e sempre apresentavam alguém novo com quem poderíamos conversar ou traziam informações novas. 

Como as pessoas do universo do rodeio enxergaram a criação da "Lei do Rodeio"? Segundo eles, o que falta para que o profissional do rodeio seja mais valorizado? 
São as pessoas mais antigas do rodeio que valorizam mais a lei do rodeio, porque foram elas que mais lutaram para que a atividade fosse reconhecida. A lei garante o direito dos peões e dos animais e, assim, deixa o rodeio mais seguro para os dois lados. 

Porem ainda faltam, segundo muitos entrevistados, mais estudos sobre a modalidade para que não haja prejuízo para nenhuma das partes e para que o rodeio possa ter comprovações científicas para confrontar acusações de maus tratos, por exemplo. 

Vocês viajaram para várias cidades do interior do Brasil acompanhar rodeios. Foram Colorado (PR), Bilac (SP), Ribeirão Preto (SP), Jaguariúna (SP), Palestina (SP), Paulo de Faria (SP), Guaxupé (MG), Promissão (SP). Existem muitas diferenças entre o rodeio, por exemplo, do Paraná e de Minas Gerais? 
Vimos mais diferença entre os campeonatos que acompanhamos, Ekip Rozeta, PBR Brasil e Top Team Cup. Cada campeonato tem um estilo de montagem de arena, provas, competidores, quantidade de profissionais e eles levam esse estilo, esta montagem para todas as cidades, independentemente do tamanho do município ou do estado.

Depois, foram para os Estados Unidos. Quais as principais diferenças vocês encontraram no rodeio de lá e no de cá? Desde a estrutura do evento, shows, a forma como os peões são tratados?
A primeira grande diferença é que o rodeio nos Estados Unidos tem a montaria como foco. Durante o rodeio de Las Vegas, que acompanhamos, até tinha alguma banda no começo, mas não era um mega show ou uma atração principal como acontece no Brasil.

Lá também a organização do rodeio é bem diferente, há uma maior profissionalização do esporte. O rodeio tem hora certa de começar e terminar, os rodeios são realizados muitas vezes em espaços fechados, como ginásios de basquete, os peões têm um local especial para ficarem, há até sala de imprensa e folhetos que indicam para o público e para os jornalistas como está a pontuação e as montarias daquela etapa.

O relacionamento entre peões e o público também é diferente nos estados Unidos. Os atletas são reconhecidos e tratados como ídolos, tem torcida e são parados na rua para tirar fotos ou dar autógrafos. 

Se aqui no Brasil o material sobre rodeio é escasso, o mesmo se dá nos EUA? Ou existe maior espaço na imprensa, em filmes, livros etc? 
Como nosso foco era o rodeio brasileiro, não fizemos pesquisa de material americano, mas nos contaram que a história no rodeio nos Estados Unidos é bem preservada. Há um museu sobre a história do rodeio no país, por exemplo.

No livro de vocês, por exemplo, descobri que a nota '100' é impossível de ser obtida, pois ela é formada metade pelo animal e metade pelo peão. Nesse tempo de pesquisa, que outras curiosidades vocês descobriram sobre o rodeio e poucas pessoas sabem?
Teve uma coisa que deixou a gente surpreso, mas não chega a ser uma curiosidade. Como não conhecíamos muito o mundo do rodeio, pensávamos que havia muita competição entre os peões já que a cada etapa muda bastante o ranking de colocação, 

Mas descobrimos que os competidores são muito unidos e se veem como uma família. Segundo eles, o convívio entre os peões é maior do que com a própria família. Para eles a competição é com o touro e não entre os peões. 

Que personagens vocês desconheciam sobre o mundo do rodeio antes de fazer a pesquisa? Podem citar alguns que mais marcaram e por quê? 
A maioria dos personagens do rodeio a gente não conhecia e dos que conhecíamos não sabíamos todas as regras de cada função. Foi por isso que a gente teve a ideia de explicar cada uma das funções dentro do rodeio. 

Não sabíamos, por exemplo, que precisava de duas pessoas para abrir a porteira, o porteireiro e o ajudante, e também não conhecíamos antes a importância do sedenheiro no pulo. 

Para quem ficou interessado no livro Além dos Oito Segundos, basta acessar página no Facebook com o mesmo nome da obra. Lá é possível conversar conversar com os autores, tirar dúvidas e até adquirir a obra.

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