Especial: Projeto cria alimentos e cosméticos a partir de subprodutos do maracujá

Ao reaproveitar restos do maracujá, uma parceria público-privada revoluciona a cadeia produtiva da fruta no RJ

Paulo Palma Beraldo

Você sabia que quase 70% de um maracujá é jogado fora? Isso porque a casca e as sementes, normalmente descartadas, representam mais da metade da fruta. 

O Brasil é o maior produtor de maracujás do mundo - são colhidas em torno de 770 mil toneladas da fruta anualmente. 

O norte do Rio de Janeiro é uma região importante na produção de sucos e polpas de maracujás. Mas essa indústria não utiliza as sementes e a casca. 

Esses subprodutos somam cerca de 40 mil toneladas. Pensando nisso, um grupo de pesquisadores, instituições de ensino e setor privado decidiram fazer uma parceria. 

Por meio do projeto APL Maracujá (Arranjos Produtivos Locais), em execução desde 2007, foi criada uma indústria que reaproveita esses resíduos e os transforma em novos produtos: sorvetes, remédios, pães, biscoitos, sabonetes, cremes, shampoos. 

A indústria Extrair Óleos Naturais, da cidade de Bom Jesus do Itaboana, no norte do Rio de Janeiro, nasceu dessa parceria. E já recebeu cinco prêmios na área de gestão eficiente de recursos e desenvolvimento sustentável. Alguns produtos são exportados, como as sementes desidratadas, para países como o Japão. 

O De Olho no Campo conversou com Sérgio Cenci, pesquisador da Embrapa Agroindústria de Alimentos e um dos responsáveis por esse projeto para saber mais sobre ele. 
O projeto APL Maracujá também tem o objetivo de contribuir para que a produção de maracujá do estado volte a crescer de forma sustentável, ao fazer a inovação tecnológica no campo - acrescenta Sérgio. 

Sérgio lembra também que a cadeia produtiva do maracujá "gera muitos empregos por hectare plantado e envolve, na maioria das vezes, agricultores familiares". 

- É uma fruta tipicamente de produção familiar, onde a maioria das unidades produtivas são em áreas de aproximadamente 2 hectares - diz. 

Abaixo você confere a entrevista completa. 
Quando e como surgiu a ideia de trabalhar com o processo de industrializar os subprodutos do maracujá?
Começou em 2007, por ocasião da elaboração do Projeto APL (Arranjos Produtivos Locais) Maracujá no estado do Rio de Janeiro. Se planejou uma atuação em toda a cadeia produtiva, envolvendo desde ações de pesquisa, transferência de tecnologia e inovação no campo, até melhorias de processos nas indústrias de suco e polpa. 
E, por fim, o aproveitamento dos resíduos, uma questão fundamental para o sucesso de qualquer Arranjo Produtivo Local voltado às cadeias produtivas agropecuárias, juntamente com a questão da Inovação Tecnológica. 
Portanto, com o desenvolvimento das pesquisas e seus  resultados, concluiu-se pela viabilidade técnica e econômica do aproveitamento total dos resíduos das indústrias de suco e polpa de maracujá, não apenas da semente, mas também da casca. 
Com o surgimento do interesse de um empreendedor privado e com apoio da FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro), foram criadas as condições para a instalação de uma planta industrial piloto para o processamento da semente de maracujá, dando origem à empresa Extrair Óleos Naturais.

Isso possibilitou fazer a inovação tecnologia, ou seja, transferir as tecnologias desenvolvidas pelo projeto
 gerando impactos sócio-econômicos e ambientais positivos.

Há algum projeto semelhante em andamento em outro lugar? 

Em se tratando de um projeto com visão e atuação de Arranjo Produtivo Local, focando uma cadeia agrícola e o aproveitamento de resíduos, podemos dizer que o projeto APL Maracujá foi pioneiro no Brasil nesta cadeia produtiva, quando se considera o fechamento do ciclo PD&I. 
A Embrapa vem ampliando sua atuação na área de co-produtos, possibilitando que ações deste tipo sejam implementadas em outras cadeias produtivas como da uva, coco verde, algodão, do processamento mínimo de hortaliças, visando o aproveitamento dos resíduos oriundos do processamento destes produtos. 
No Brasil, poderíamos citar um bom exemplo de cadeia produtiva que tem adotado a prática do uso de resíduos com certa eficiência, a cadeia da cana-de-açúcar. 
Portanto, como no caso dos resíduos da cana-de-açúcar, os resíduos provenientes do cultivo e do processamento do maracujá podem ser 100% aproveitáveis, e o que é muito importante, sem gerar nenhum outro resíduo neste processo. 
Outros setores de produção como suínos e aves também têm se destacado no uso dos resíduos agrícolas.

A região conta com nove agroindústrias. Como se deu a criação desse pólo?

A criação destas agroindústrias se deu basicamente pelo aumento da produção de maracujá no estado do Rio de Janeiro, no princípio da década de 2000, com a implementação de um programa de incentivo à produção desta fruta no estado, denominado programa FRUTIFICAR, o que fez do Rio de Janeiro um dos maiores produtores de maracujá do Brasil. 

Infelizmente, esta realidade não se sustentou por problemas técnicos de produção, sendo que hoje, mais de 90% da fruta que é destinada ao mercado “in natura” e às indústrias de suco e polpa do estado é procedente de outros estados produtores do Brasil.

Para que a produção de maracujá do estado volte a crescer de forma sustentável, é fundamental que haja a implementação de políticas públicas de fomento, como crédito rural e assistência técnica ao produtor. 
Outra questão que beneficiou a instalação destas agroindústrias foram os incentivos fiscais e a localização estratégica, próxima ao segundo maior mercado consumidor do Brasil.
Qual a importância econômica e social do cultivo de maracujá nesse cenário?

Quanto à importância econômica, o Brasil é o maior produtor mundial da fruta com mais de 700 mil toneladas produzidas por ano. Esta produção de maracujá não tem sido suficiente para atender a demanda nacional e do mercado externo nos últimos anos, o que tem elevado os preços pagos pela fruta ao produtor. 
O suco de maracujá tem grande procura e é um dos preferidos dos consumidores. Portanto, é uma cultura que tem alta rentabilidade para os produtores e processadores. 
Associado a isso, gera muitos empregos por hectare plantado e envolve, na maioria das vezes, agricultores familiares. É uma fruta tipicamente de produção familiar, onde a maioria das unidades produtivas tem áreas de aproximadamente 2 hectares. 
Se considerarmos o potencial de geração de emprego e renda com o aproveitamento dos resíduos, podemos concluir que os ganhos são ainda maiores, e, muitas das vezes, superiores aos ganhos gerados pelo suco e polpa de maracujá.


De que forma o programa Frutificar, lançado em 2000 pelo governo estadual, auxiliou no processo de crescimento da agropecuária no RJ? 

O FRUTIFICAR é um programa voltado ao incentivo da produção de frutas do estado do Rio de Janeiro e teve um papel relevante no incremento da produção de algumas frutas no estado, em especial o abacaxi. 
Em outras, como o maracujá, ao mesmo tempo que foi o responsável pelo maior crescimento da produção da história do Rio de Janeiro, o programa não conseguiu manter este crescimento. Pelo contrário, observou-se um quebra brusca na produção desta fruta. 
Isto se deveu, em partes, às deficiências do programa para atender às demandas do setor em assistência técnica e capacitação aos diferentes agentes da cadeia produtiva como agricultores e técnicos.

Como foram realizadas as parcerias público-privadas entre os vários ramos da cadeia produtiva do maracujá até a concepção do projeto? 
Como o projeto tem como método de trabalho uma visão de Arranjos Produtivos Locais e, portanto, atuação em toda a cadeia de valor e com foco no desenvolvimento local/regional, na inovação tecnológica e no aproveitamento dos resíduos, foram realizadas as parcerias estratégicas para que isso ocorresse. 
É bom que se diga que entre as vantagens que o estado do Rio de Janeiro possui para a produção agropecuária, está o grande número de instituições (Universidades e Institutos de pesquisas) voltadas para a realização de pesquisas e inovação tecnológica. 
No entanto, este potencial, na maioria das vezes, é desperdiçado, na medida em que não há articulação para que haja parcerias e atuação em rede. Penso que o projeto APL Maracujá conseguiu desde sua concepção reunir os principais atores públicos do estado (Embrapa, Universidades/UENF, Pesagro-Rio, Emater-Rio, Instituto Federal-Campus Bom Jesus do Itabapoana, Superintendência de Agricultura do estado do Rio de Janeiro, programa Frutificar, prefeituras municipais, Agências de fomento como MCT/CNPq/FINEP, FAPERJ, SEBRAE, entre outros) que foram fundamentais para viabilizar a inovação tecnológica no setor. 
Isto associado às parcerias privadas (Firjan, Agroindústrias de suco e polpa, indústrias de equipamentos, empreendedores, produtores rurais) geraram as condições para que o projeto tivesse êxito.
A partir dos resultados da pesquisa, que tornaram produtivos uma massa que normalmente seria desperdiçada (aproximadamente 70% da fruta), extrai-se um produto até mais rentável que o original. Existe potencial no Brasil para que esse tipo de iniciativa se espalhe por outras regiões? Se sim, como deve ser conduzido? 
Sim, recentemente estivemos reunidos para desenvolver estas iniciativas em outros estados da federação. Penso que a estratégia para que isso ocorra é a de envolver novos parceiros e, agora mais do que nunca, a indústria de suco e polpa do maracujá e outros parceiros como os fabricantes de equipamentos, para que num processo de inovação aberta, se realizem as adequações nas linhas de processo industrial pelo país afora, ajustando e introduzindo novos equipamentos para que o sistema de tratamento e aproveitamento dos resíduos seja instalado em série, possibilitando que não  apenas a semente mas também a casca da fruta, que tem um grande potencial de uso principalmente na indústria de alimentos, sejam aproveitados.
Um subproduto do maracujá pode ser utilizado para fazer sorvetes, remédios, pães, sabonetes, biscoitos etc. Existem planos para trabalhar a industrialização de outras frutas, com grande capacidade de reaproveitamento, como o maracujá? 

Existem planos para o aproveitamento dos resíduos de outras frutas, como o bagaço e a semente da uva, sementes de café, goiaba, graviola, dentre outras frutas.

Fotos: Soraya Pereira

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