Pesquisa quer tropicalizar a Canola para expandir produção

Pesquisadores brasileiros estão investindo na viabilidade do cultivo da canola em regiões tropicais do País para atender ao crescimento na demanda. 

O resultado seria como uma segunda safra no mesmo ano, otimizando o uso de terras, máquinas e outros meios usados na produção de milho e soja em milhões de hectares do cerrado, de estados como São Paulo, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. 

Os pesquisadores da Embrapa testam 30 genótipos buscando tropicalizar a cultura e com isso garantir a produção em baixas latitudes (entre 6 e 13 graus) e em altitudes acima de 600 metros.

A canola é a terceira oleaginosa mais importante no mundo, ficando atrás do dendê e da soja. O consumo do óleo da canola no Brasil ainda é considerado baixo, limitado pelo preço do produto, baixos volumes de produção e dificuldades de distribuição logística.  

Segundo o IBGE (2012), o consumo per capita de óleo de canola no País é de 0,064 kg/hab./ano, valor bastante inferior ao consumo estimado de óleo de soja de 6,34 kg/hab./ano. 

A canola é cultura de inverno, típica das regiões mais frias do mundo. No Brasil, o cultivo está concentrado na região Sul, onde as temperaturas amenas favorecem o desenvolvimento das plantas. 

Esse cultivo é uma boa oportunidade para atender o crescimento na demanda brasileira e mundial de proteínas para produção de carnes e a diversificação de espécies produtoras de óleo vegetal de elevada qualidade para o consumo humano e energia renovável (biodiesel).

As regiões Sul (0,11 kg/hab./ano) e Sudeste (0,098 kg/hab./ano) apresentaram maior consumo per capita, condicionadas pelas classes de rendimento mensal familiar acima de R$ 4.150 com os maiores valores de consumo. 

"Cada vez mais a soja tem sido utilizada para a produção de biocombustível, deixando espaço para a popularização do óleo de canola no consumo humano", explica o analista da Embrapa Trigo, Paulo Ernani Ferreira. 


Utilizada em vários segmentos do mercado, a canola ganha cada vez mais espaço no segmento alimentício, impulsionada tanto pela qualidade nutricional (ômega 3, vitamina E) quanto pelos benefícios comprovados à saúde, como redução do colesterol e o risco de doenças cardíacas. Análises da Embrapa indicam que se houvesse a substituição de 1/5 do consumo brasileiro de óleo de soja por óleo de canola, ou seja, 1,42 kg/hab./ano, a demanda potencial de óleo de canola no País seria de 299,52 milhões de litros, ou seja, 765,4 mil toneladas de canola-grão, doze vezes mais que a atual produção nacional.

Tropicalização da canola
Em Minas Gerais, a Universidade Federal de Uberlândia organizou  o Grupo de Estudos e Pesquisas em Canola em março de 2014. A primeira ação foi realizar um diagnóstico para localizar as áreas de cultivo no Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba. Foram identificados 22 produtores de canola, com área total de dois mil hectares, estimada a partir da comercialização de sementes. 

Em Uberaba, Minas Gerais, uma área de 30 hectares de canola é a base de experimentação do produtor José Luiz Balardin, que investe na cultura pela primeira vez: "A gente tem acompanhado o crescimento do mercado de óleos e vê que a canola é uma nova oportunidade de diversificação na propriedade. Ainda não temos como avaliar o potencial de rendimento, mas toda a produção já tem comprador garantido".

No Mato Grosso os primeiros trabalhos de adaptação da canola ao ambiente tropical foram realizados em 2006. Em 2013, a Universidade Estadual do Mato Grosso (Unemat - campus Tangará da Serra) e a Prefeitura Municipal de Campo Novo do Parecis implantaram novos experimentos na região e acompanhamento técnico da Embrapa Trigo e da indústria de óleos e sementes. No local, estão sendo realizados trabalhos na identificação de híbridos de canola com maior adaptação ao ambiente, mostrando resultados iniciais de rendimento de 1.280 e 2.500 quilos por hectare (kg/ha), semelhantes aos resultados obtidos no Sul. "O potencial agrícola da região, em função das condições de clima, solo, topografia, bem como do perfil dos produtores rurais e empresas com experiência no fomento da produção de canola, permite projetar uma área de 150 mil hectares em um curto período de tempo", explica o pesquisador Gilberto Omar Tomm da Embrapa Trigo. A iniciativa conta com o apoio de instituições de ensino e pesquisa, indústria de óleos, assistência técnica privada e produtores. 

Além da liquidez de mercado e a rentabilidade equivalente à soja, a expansão da canola está associada a melhorias no sistema produção, como redução na incidência de pragas e doenças nos cultivos subsequentes, menor gasto com defensivos e adubação do que os demais cultivos de grãos, resistência à seca e aos veranicos comuns na região, maior teor de óleo e produção no período de sazonalidade da soja.

Pesquisa na vanguarda mundial
A tropicalização da canola pretendida pela Embrapa é uma iniciativa inédita no mundo com introdução da cultura em baixas latitudes, em clima tropical. Até então, a indicação de cultivo estava limitada às regiões de clima temperado e latitudes entre 35 e 55 graus. 

A latitude está relacionada à distância da Linha do Equador (que cruza o Norte do Brasil), assim, quanto mais próximo ao Equador, maior a temperatura e maior a incidência de luz solar. A luminosidade é benéfica para o cultivo da canola, mas as altas temperaturas não. 

Este é o maior desafio na identificação dos locais e dos híbridos mais indicados ao cultivo. "Estamos avaliando o cultivo da canola em área com altitudes acima de 600 metros, que podem ser quentes durante o dia, mas onde as plantas se favorecem com a queda da temperatura à noite", explica o analista da Embrapa Trigo, Paulo Ernani Ferreira.

Para avaliar as oportunidades e limitações da pesquisa, uma equipe multidisciplinar de pesquisadores faz o acompanhamento a campo, com a avaliação de 30 genótipos de canola em 2014.

 Os experimentos permitem identificar materiais com maior potencial de cultivo com base em avaliações de ciclo, desenvolvimento de plantas e produtividade. Também estão sendo observados aspectos de manejo em ajustes fitotécnicos como época de semeadura e zoneamento agrícola, identificação e controle eficiente de insetos-praga e plantas daninhas, adubação, entre outros.

Fonte: Joseani M. Antunes/Embrapa Trigo 
Fotos: Joseani Antunes/Embrapa Trigo

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