Embrapa Clima Temperado pesquisa cultivo de morangos suspensos

Paulo Palma Beraldo
Fotos: Carlos Reisser Júnior

O De Olho no Campo fala hoje sobre um tema diferente: cultivo de morangos fora do solo. Para isso, o entrevistado é Carlos Reisser Júnior, engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Clima Temperado, de Pelotas-RS. 

Esse centro de pesquisa é famoso por uma forma de produção chamada de Sistema de Produção de Mudas de Morango Fora do Solo. 

Os pesquisadores Luís Eduardo Antunes, Roberta Peil, Bruno Ludtke e produtores de morango também fazem parte do projeto. 

A técnica já é utilizada por produtores italianos (cime radicate) e americanos (plug plant) e também por viveiristas de hortaliças em alguns locais do Brasil. E no Rio Grande do Sul vem ganhando as propriedades de pequenos agricultores. 

Uma das vantagens é que o trabalho pode ser realizado em qualquer condição climática, o que permite aumentar a produtividade na entressafra. 

Além disso, o serviço rende mais - o produtor trabalha em pé. A produção é sustentável pois reduz o uso de agrotóxicos, o que tem tirado a fama do morango de ser um produto muito envenenado. Outros benefícios são o menor número de pragas e o maior aproveitamento do espaço. 


Como começou? - Cultivar fora do solo não é uma prática muito nova visto que os jardins da Babilônia, como dizem os estudiosos, era baseado em uma técnica semelhante. Já a técnica de se produzir em água com adubos solúveis, soluções nutritivas, surgiu na Califórnia no início do século XX - explica o engenheiro agrícola Carlos Reisser, membro da equipe de fruticultura da Embrapa Clima Temperado. 

Confira abaixo todos os detalhes da conversa.

Quando e como começaram as pesquisas sobre o plantio de morangos suspensos?
Vamos começar a falar sobre nosso trabalho com morangueiros. Nosso centro de pesquisas, o Centro de Pesquisa Agropecuária de Clima Temperado, ou Embrapa-Clima Temperado, localizado na cidade de Pelotas-RS, iniciou seus trabalhos no início dos anos 1980, visando gerar tecnologias para a produção de morango para abastecer o parque industrial existente na região. 

O produto adequado eram frutas de tamanho pequeno e com alta concentração de açúcares e coloração intensa. Esta fruta, na maioria para congelada, servia para abastecer outras indústrias principalmente de geleias e produtos lácteos.

Nesta época este morango era produzido por pequenos agricultores, com mudas e insumos “doados” pela indústria. Estas plantas foram melhoradas pelo nosso centro de pesquisas até atingirem produtividades em torno de 200 g de frutos por planta. 

Nossa região era a maior produtora de morangos do Brasil. Nosso trabalho buscou melhorar o sistema de produção introduzindo novas técnicas, melhorando a qualidade, porém a rentabilidade da cultura não ficou adequada à produção industrial, levando o produtor abastecer mercados mais rentáveis. 

Foto: Carlos Reisser/Embrapa Clima Temperado
Novas técnicas foram surgindo, como irrigação por gotejamento, fertirrigação, túneis plásticos e coberturas de solo, bem como as novas variedades modernas e direcionadas ao mercado de mesa, fazendo com que o morangueiro atingisse produtividades de mais de um quilograma por ano por planta. O uso de químicos menos tóxicos e com maior controle e rastreabilidade permitiu produção de produtos de melhor qualidade.

Com a ambientação com novas técnicas de cultivo e maiores investimentos, os produtores de morango foram se especializando e devido à rentabilidade alcançada se encorajaram a investir mais pesadamente na produção chegando até a aplicar mais de R$ 60.000,00 por hectare. 

Com estes valores e com as variedades independentes ao fotoperíodo do dia, verificou-se a possibilidade de produção de morangos em ambientes mais especializados como as estufas e túneis altos plásticos. 

Devido a problemas de difícil solução com doenças relacionadas ao solo, a hidroponia ou cultivo fora do solo veio como solução. Além de outras vantagens como a de maximizar a mão-de-obra na produção, o que hoje é um dos principais problemas de nossa agricultura.

Foto: Carlos Reisser/Embrapa Clima Temperado
O sistema hidropônico escolhido pelos agricultores também visava a maior concentração de plantas dentro do ambiente protegido, o que proporcionaria uma elevada produtividade por metro quadrado. 

Para isso testou-se produzir em sistemas verticais, em mesas sobrepostas, em bancadas. Porém, verificou-se que o sombreamento das plantas inferiores não permitia que a produtividade destas plantas fosse igual às superiores, portanto na média a produtividade permanecia igual aos sistemas de produção em um só nível. 

O sistema hidropônico mais utilizado é chamado por alguns centros de pesquisa como ‘Semi hidropônicos’. Ele usa como substrato um material orgânico (normalmente composto orgânico ou turfa) juntamente com um material inerte (normalmente casca de arroz carbonizada, perlita, vermiculita, ou areia) envasado em sacos de plástico especial, irrigados e fertilizados com uma solução nutritiva completa, com a intensão de proporcionar todos os nutrientes necessários à planta, independentemente dos existentes no substrato. 

Esta solução permanece por determinado período junto às raízes das plantas e o excedente drena por furos existentes na parte inferior os sacos para o solo.

Nosso centro iniciou os trabalhos com esta técnica, porém temos trabalhado atualmente com um sistema que utiliza somente a casca de arroz carbonizada dentro de calhas, irrigando com solução nutritiva que é drenada novamente para a bomba voltando novamente para as plantas formando um ciclo fechado. 

Neste sistema há necessidade de se ligar a irrigação mais vezes ao dia visto que o substrato não armazena muita solução. Este cuidado deve ser maior nas fases de desenvolvimento inicial da cultura visto que esta apresentam sistema radicular reduzido e em crescimento.

Foto: Carlos Reisser/Embrapa Clima Temperado
Onde surgiu essa técnica de cultivar as plantas 'fora do solo'? 
Cultivar fora do solo não é uma prática muito nova visto que os jardins da Babilônia, como dizem os estudiosos, era baseado em uma técnica semelhante. Nossos vizinhos andinos também usavam técnicas parecidas quando o Brasil foi descoberto. Mas a técnica de se produzir em água com adubos solúveis, soluções nutritivas, surgiu na Califórnia no início do século XX. 

Hoje esta técnica está muito avançada e pode ser vista de várias formas. A mais correta me parece a produção em filmes de água dentro de calhas sem nenhum tipo de substrato. Alguns autores também chamam de hidroponia os sistemas que estamos usando para morango, onde um substrato quase inerte é utilizado para fixação da planta e manutenção da umidade junto às raízes das plantas. 

"Muito famosos também são trabalhos da NASA com a produção fora do solo. Eles também testaram um sistema onde a planta é suportada com as raízes junto ao ar de dentro de túneis onde a solução nutritiva é aspergida para as raízes mantendo-as molhadas e com adubos à disposição".

Foto: Carlos Reisser/Embrapa Clima Temperado
Quais seus principais benefícios?
Os benefícios da técnica para o morangueiro são: principalmente a condição de trabalho do operário, que fica trabalhando em pé junto ao canteiro das plantas; pode-se trabalhar em qualquer condição de tempo; não existe o contato das plantas com o solo, o que reduz o inóculo da maioria de doenças fúngicas, o que aumenta vida útil das plantas; evita a rotação de áreas de produção, pratica necessária para redução de doenças. 

Existe a possibilidade de melhor controle de pragas e doenças devido à necessidade de proteger o ambiente com estufas e túneis plásticos; facilidade na adoção de praticas de manejo integrado de pragas e doenças; aumentar o período de produção de frutos fora das épocas normais em regiões chuvosas e com clima mais ameno no verão; permite produção com alta rentabilidade em pequenas áreas e por conseqüência pequenas propriedades. 

Porém também apresenta algumas desvantagens como: maior investimento inicial; maior nível de conhecimento das praticas culturais do morangueiro e principalmente manejo de nutrientes e planta; atualização por parte do produtor e técnicas de venda que garantam preços diferenciados buscando maximização dos lucros da propriedade.

Desde então, como tem sido recebida essa técnica pelos produtores rurais?
No Rio Grande do Sul a técnica vem apresentando um grande crescimento, visto que está novamente viabilizando a produção em regiões onde a pressão de doenças é muito forte nos cultivos no solo. Este sistema tem proporcionado uma melhora na qualidade dos frutos, retirando a fama de produto muito ‘envenenado’. 

As regiões que mais têm investido na técnica são regiões onde o cultivo já era tradicional e em regiões onde o verão apresenta noites frescas, permitindo a produção durante todo o ano. Nestas regiões já existem produtores com mais de 5 hectares cobertos usando a técnica de hidroponia para a produção de morangos. 

Hoje o nosso Estado é o principal fornecedor de morangos fora da época normal de produção dos estados que mais produzem morango que são Minas Gerais e São Paulo. Nestes estados esta técnica também pode vir a crescer visto que permite a produção de verão em regiões onde chove muito eliminando ou reduzindo o alto risco de ocorrência de doenças que eliminam a possibilidade.

Foto: Carlos Reisser/Embrapa Clima Temperado

Em geral, qual é o perfil dos agricultores que plantam morango na região?
Em nossa região os produtores que estão se dando conta que vale a pena investir nesta produção são os produtores experientes, que conhecem a cultura e sabem da sua rentabilidade. Estes produtores já são preocupados em redução e utilização adequada de agrotóxicos e na maioria pequenos agricultores. 

O Rio Grande do Sul é o terceiro maior produtor de morangos do país, atrás de MG e SP. O senhor enxerga uma perspectiva de crescimento e de maior rentabilidade desses produtores graças a essa técnica, já que ela permite que alguns possam produzir suas próprias mudas sem depender daquelas importadas?
A produção de mudas é uma outra tecnologia que estamos trabalhando visando melhorar nosso sistema de produção. Estamos desenvolvendo um sistema que nos permite produzir mudas antes da época de entrega das mudas importadas. Este sistema que usa a hidroponia para produção de mudas, somente é viável devido a possibilidade de se obter morangos antes das outras regiões. 

O usuário desta técnica porém deverá respeitar as normas de produção de materiais genéticos importados que são protegidos e são comercializados por empresas específicas. 

Neste sentido também estamos trabalhando com um programa de melhoramento vegetal buscando a criação de variedades brasileiras que apresentem as características desejáveis do mercado brasileiro e que apresentem maiores facilidades na produção de mudas.

Que atitude um produtor interessado em utilizar essa técnica deve tomar? Qual seria o investimento aproximado para adequar e começar a produção de morangos suspensos?
O produtor interessado deverá procurar os centros de pesquisa e de assistência técnica especializada para se informar a respeito das características de cada região, principalmente o clima para saber sobre os sistemas que mais se adaptam a sua região. 

Muitas vezes em determinados locais as condições mais favoráveis economicamente são as mais simples. Técnicas como esta não são infalíveis ou seja dependem do produtor para atingirem sucesso. O conhecimento e a dedicação são as prerrogativas fundamentais para tornar o negócio viável.

Postagens mais visitadas