Agricultura: melhor prevenir do que remediar

Maurício Antônio Lopes, presidente da Embrapa

A recente infestação de uma lagarta voraz em diferentes lavouras brasileiras chamou a atenção para um problema antigo: o risco constante de pragas e doenças causadas por organismos quarentenários. 

Quarentenários são organismos como vírus, bactérias e fungos ou insetos e ervas daninhas, de outros países, que podem cruzar nossas fronteiras, causando doenças e danos às lavouras e criações.

O perigo existe desde o descobrimento do Brasil, quando os colonizadores começaram a trazer, de outras terras, o gado, as aves, a cana-de-açúcar, o café e assim por diante. 

Com essas riquezas vieram as primeiras pragas e doenças. De lá para cá, cresceu o intercâmbio de plantas e animais entre o Brasil e o mundo e, com ele, a ameaça das pragas e doenças exóticas.

Para monitorar tais riscos e organizar ações de controle, o Brasil criou, em 1909, o Serviço de Defesa Agrícola e, em 1934, o sistema de quarentena, em que confina todo material importado para agricultura por tempo necessário para que alguma praga ou doença dê sinal de vida.

Mas a prevenção não é tarefa fácil. As pragas e doenças podem chegar por migração natural, viajando com plantas e animais, por terra, pelas águas e pelo ar, em containers e na sacaria, saltando de uma lavoura para outra, de país para país.

Pode ocorrer por introdução acidental: uma semente esquecida no bolso, um carrapicho grudado na roupa ou um pouco de lama e esterco preso no solado da bota. E, por fim, há a introdução intencional, num ato de agroterrorismo, com o propósito de causar prejuízos.

É muito difícil, para qualquer país, controlar todas essas situações. No Brasil temos quase 17 mil quilômetros de divisas terrestres, grande parte em florestas, mais de 7.300 quilômetros de fronteiras marítimas e um espaço aéreo de mais de oito milhões de quilômetros quadrados.

Assim, temos sofrido sucessivas invasões desses organismos. Nos últimos 20 anos, além da Helicoverpa, a lagarta mencionada no início deste artigo, aqui aportaram a bactéria que causa o HLB ou amarelão-dos-citros (2004), os fungos que causam a podridão-da-raiz (1994) e a ferrugem-asiática (2001) da soja, o besouro bicudo-do-algodoeiro (1983) e a mosca-dos-chifres (1980), que aflige os nossos bovinos. São bilhões de reais em prejuízos.

Já se sabe que há cerca de 450 outras pragas e doenças de alto risco aguardando a chance de invadir o Brasil. É difícil impedir essa invasão e não se pode prever qual praga chegará primeiro: se uma que já está num país vizinho ou outra que virá numa carga do outro lado do mundo.

Sendo exóticas, é normal que não haja controle químico ou biológico disponíveis para uso imediato. Há doenças, como a mancha-vermelha-da-folha-da-soja, para a qual não há controle químico ou biológico desenvolvido. 

A solução, então, é desenvolver plantas e animais resistentes a essas pragas e doenças, o que requer anos de trabalho. Então, é preciso fazer esse trabalho antes que o problema se instale. Um das estratégias é o melhoramento preventivo.

É ideia antiga, mas eficiente. O pesquisador Alcides Carvalho, do Instituto Agronômico de Campinas, já em 1950, no auge da cafeicultura paulista, criou cultivares resistentes a uma doença que ainda não existia no Brasil, a ferrugem do cafeeiro. Em 1970, quando a doença chegou, os danos foram limitados.

A dificuldade em fazer melhoramento preventivo é que os recursos são sempre limitados e é preciso priorizar o combate às pragas e doenças já instaladas. Então, a chance de criar soluções para problemas futuros está nos momentos de fartura da agricultura, quando há um pouco mais de recursos.

É o que o Brasil faz agora. Além de buscar soluções para as pragas e doenças já instaladas, há grande esforço para desenvolver plantas resistentes a doenças devastadoras como o crestamento-bacteriano do arroz, a mancha-vermelha-da-folha-de-soja, e o crestamento-bacteriano-aureolado do feijoeiro, que ainda não chegaram aqui.

O melhoramento preventivo interessa a todos, até consumidores, porque tem impactos positivos nos preços dos alimentos e no meio ambiente. Por isso, já é uma grande parceria entre órgãos de defesa agropecuária e de pesquisa, federais e estaduais, empresas privadas e associações de produtores, do Brasil e de países como EUA, Chile, Panamá e Angola.

E vai crescer, envolvendo mais países para conter outras pragas e doenças. É guerra diária, sem descanso, sem fronteiras, sem quartel. Felizmente, é uma guerra em que estamos todos do mesmo lado.

Fonte: publicado originalmente pelo jornal Correio Braziliense em 10 de agosto de 2014 e retirado do site Embrapa.
Foto: Paulo Palma Beraldo/De Olho no Campo

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