Caminhos do leite: do campo à mesa

Brasil é um dos quatro maiores produtores de leite do mundo; um quarto das propriedades rurais do país produz o alimento e seu consumo aumenta ano a ano

Texto e fotos: Paulo Palma Beraldo

“O leite é um alimento muito próximo da perfeição”. Com essa frase de Hipócrates, conhecido como o “pai da medicina”, Eduardo Nascimento começou sua palestra na Usina de Laticínios Jussara, em Patrocínio Paulista-SP, no dia 2 de maio de 2013. Eduardo é Gerente de Política Leiteira do oitavo maior laticínio do país, segundo a lista da Associação Brasileira dos Produtores de Leite.

Ele apresentou em pouco menos de 60 minutos um panorama da cadeia produtiva de leite no Brasil. “A produção brasileira é próxima a 32 bilhões de litros de leite por ano. É muito?”, pergunta. Ele responde que sim, mas a demanda do país é superior. O Brasil é obrigado a importar leite todo ano.


Eduardo contou que a cadeia do leite “é uma das mais importantes, principalmente para as famílias carentes. A atividade leiteira dá o rendimento mensal”, explica ele, chamando atenção para o fato de que cerca de 10 milhões de famílias dependem dessa atividade.

E ainda trouxe informações sobre o maior produtor de leite do mundo, os Estados Unidos. “Quando o Lincoln foi presidente (de 1861 a 1865), ele fundou o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Na época, ele dizia que os 98% da população americana que habitavam no meio rural alimentavam os 2% que estavam nas cidades, mas que chegaria um dia que os 2% das fazendas alimentariam os 98% das cidades”, relata. Esse dia chegou.

O êxodo rural – ida dos habitantes do campo para as cidades - induziu a uma necessidade de aumento de produtividade, principalmente com investimentos em tecnologia. Com o maior desenvolvimento de vacinas, adubos fertilizantes e insumos, a produtividade aumentou. Eduardo afirma que em 1975, a produtividade leiteira do Brasil era próxima de 645 litros por vaca anualmente. Hoje, a produtividade média do Brasil é de 1382 litros, ainda abaixo da média mundial, que beira os 2.300 litros.

O que falta para o Brasil?
Quem responde essa pergunta é o engenheiro agrônomo e coordenador do portal Milkpoint, um dos principais sites brasileiros especializados no assunto, Marcelo Pereira de Carvalho. Ele acredita que o grande desafio do país é fazer com que pequenos produtores aumentem a eficiência de produção, o que envolve melhor gestão. “A solução passa pela aproximação da indústria com a produção, em uma relação de longo prazo, envolvendo assistência técnica e melhoria da gestão”, diz.

O analista de mercado do Centro de Estudos em Economia Aplicada (Cepea), da ESALQ/USP, Paulo Moraes Osaki diz que “a atividade leiteira é uma das poucas que possui produção em todo o território nacional. Apesar de ser relativamente concentrada, ela não possui um padrão produtivo”, afirma.

O jornalista Jorge Reti, que trabalha com agronegócio há mais de 30 anos, acha que o principal entrave é a “falta de adoção de tecnologias e bom gerenciamento”. Jorge diz que “o leite é uma atividade absolutamente viável para o pequeno produtor e também para os grandes produtores”, o que leva a diferentes sistemas de produção no Brasil.

Jorge garante que aprimorar tecnologia não requer necessariamente custos elevados. “O programa Balde Cheio, da Embrapa Pecuária Sudeste é um exemplo de capacitação técnica de bastante sucesso e custo baixo”. O projeto, até o final de 2012, chegou a 24 estados brasileiros e a 710 municípios.

O jornalista afirma que uma política agrícola para o leite é necessária, mas acha errado relegar tudo para o governo. “Não se pode pensar que uma política do setor vai resolver tudo. O governo pode divulgar, colocar à disposição, mas se o produtor não quiser utilizar, não tem como”, argumenta.

“A terra do leite”
A Nova Zelândia é um pequeno país da Oceania, 30 vezes menor que o Brasil e 36 vezes menor que os EUA. No entanto, é o maior exportador de leite do mundo, com apenas treze mil produtores. Quais os segredos da Nova Zelândia? Marcelo Carvalho, do Milkpoint, visitou o país e conheceu a cadeia leiteira local revela que houve uma organização para que a nação crescesse no mercado internacional. O país desenvolveu um sistema de produção baseado na utilização de pastagens, focando no baixo custo.

A pequena população neozelandesa - quatro milhões - era insuficiente para consumir a produção de quase 20 bilhões de litros de leite anuais. “O país priorizou melhoramento genético (três a cada quatro vacas são inseminadas) de forma a aumentar a eficiência; fez acordos comerciais com diversos países; teve uma forte concentração na produção e principalmente na indústria, onde uma cooperativa (a Fonterra) detém hoje 89% do processamento do leite”, explica.

Marcelo assegura que a produção de leite é um dos motores da economia nacional. A Fonterra tem faturamento oito vezes maior que a segunda principal indústria neozelandesa. A qualidade das estradas, energia elétrica disponível, fiscalização eficiente e a logística desenvolvida são fundamentais para o sucesso do país no ramo. Além, é claro, da importância que a nação dá para o leite: um quarto da renda nacional vem do produto.

Variação tecnológica e sucesso no Sul
Seis estados concentram cerca de 75% da produção
leiteira do Brasil. Dados: Pesquisa Pecuária Municipal/IBGE
Segundo dados da Confederação Nacional da Agricultura e da Pecuária (CNA), dos 5,2 milhões de propriedades rurais do Brasil, pouco mais de um milhão produzem leite. No entanto, há locais onde a produtividade é inferior a 310 litros por vaca/ano, como em Roraima. Já nos três estados do Sul, ela supera os 2.400 litros. 

Nessa região, a exploração familiar em pequenas propriedades, o clima favorável e a disponibilidade de assistência técnica e de tecnologia foram alguns dos incentivos para o incremento da produção, como explica Francisco Heiden, técnico da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri). “O fato de haver um parque industrial bem instalado, com tecnologia e produtos de qualidade fomentou ainda mais esta atividade, que continua em ascensão e gera emprego e renda em toda a cadeia”, destaca o técnico.

Ele conta que em Santa Catarina, nove das dez regiões administrativas priorizaram a atividade leiteira. E afirma ainda que no oeste catarinense, “pelo número de famílias envolvidas e pelo volume de produção, considera-se o leite a atividade de maior importância social e econômica”.

Francisco Heiden explica que predomina no estado a “utilização da pastagem como fonte básica de alimentação dos animais, com o cultivo e manejo das forragens mais adaptadas a cada região, o piqueteamento da área de pastagem e o pastoreio racional rotativo”.
Além disso, a falta de atividades concorrentes facilitou o aumento da produção na região. São Paulo é um dos estados onde outras atividades – como a cana de açúcar e a laranja - substituíram a produção leiteira. Em 20 anos, a produção de leite reduziu mais de 20%.

Logística e concentração de produção
Os EUA contam com 70 mil propriedades leiteiras, mas sua produção é três vezes maior que a brasileira. Boa parte das propriedades fica no Nordeste do país, próxima aos Grandes Lagos e aos maiores mercados consumidores. Essa área é conhecida como dairy belt (cinturão do leite). No estado de Winsconsin, por exemplo, há um curso de quatro anos em produção de leite, além de outro voltado para os produtores, com duração de quatro meses, existente há mais de 100 anos.

Na Nova Zelândia, a Fonterra capta 230 litros de leite para cada quilômetro rodado. No Brasil, as empresas mais eficientes captam cerca de 40 litros na mesma distância. Fato semelhante ocorre em Santa Catarina, como salienta Francisco Heiden, da Epagri: “as indústrias estão concentradas onde está a produção leiteira, o que favorece a captação do leite reduzindo as distâncias. A distância entre as propriedades rurais e as indústrias ou postos de coleta é pequena, um raio de setenta quilômetros deve abranger a maioria nas propriedades”.

A infraestrutura logística não atrapalha só o leite: estimativas da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (ANEC) calculam que os prejuízos dos produtores de grãos em 2013 com o caos logístico serão próximos de US$ 4 bilhões. O custo para levar uma tonelada de grão ao porto no Brasil é US$ 98. Na Argentina, é US$ 20 e nos EUA, US$ 15. É o que ressalta Marcelo Carvalho: “Temos problemas que vão bem além do leite, são problemas nacionais, dos quais o leite também é vítima. Há tecnologia para produzir com eficiência, mas precisa de uma coordenação maior da cadeia e do governo para que a competitividade não se perca no processo”.

Ele é favorável à concentração da produção. “A concentração em determinadas áreas é importante para que tenhamos competitividade. Um dos problemas que temos no leite é que se viaja muito para captá-lo.”, destaca. Ele afirma que nem todas as regiões têm vocação para produzir leite e acredita que “a existência de clusters (centros produtivos) faz com que haja melhores serviços locais (técnicos, colheita de forragem), fábricas mais próximas, mais eficiência”. E cita o exemplo de Castro-PR, onde a produtividade é de 7.527 litros por vaca anualmente, mais de três vezes superior à média mundial.

Saúde agradece
Os séculos passaram desde que Hipócrates teorizou sobre a importância do leite. A ciência se aperfeiçoou e o mundo mudou, mas o alimento continuou presente no dia a dia das pessoas do começo ao fim de suas vidas. “O leite é um alimento rico em proteínas de alto valor biológico, que participam do processo de construção de tecidos e preservação dos músculos”, afirma a nutricionista Laís Amaral Mais.

Quem concorda com isso é a Doutora em Ciências da Saúde pela Unifesp, Marina Borelli. Ela destaca que o leite é importante para diversas funções do organismo, principalmente pela alta concentração de cálcio. “Este mineral participa da formação dos ossos e dentes, evitando assim fraturas, doenças como a osteoporose e cáries, além de ser um nutriente importante nos processos de cicatrização e secreção de hormônios”, relata.

O analista de mercado Paulo Osaki, do Cepea, assegura que a demanda de produtos lácteos, como diversos outros bens, tem relação com o bolso de quem compra. “Quando há um aumento na renda da população, há um consequente aumento no consumo. Além do aumento da renda, é necessário estimular o consumo focando nos benefícios do leite para a saúde”, explica.

O consumo cresce, em média, 5% ao ano. Marcelo declara que o país teve o maior crescimento mundial em consumo per capita de leite nos últimos 12 anos. “Passamos de 123 kg de equivalente-leite (quantidade de leite utilizada para produzir um quilo de determinado produto) em 2000 para 173 kg em 2012. Foi um crescimento gigantesco, maior ainda se considerarmos o crescimento populacional no período”.

Essa reportagem foi uma das três vencedoras do 12º Prêmio Massey Ferguson de Jornalismo e foi publicada originalmente no dia 26 de junho de 2013. 

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