Especial: Entrevista com Giuliano Pereira, pesquisador da Embrapa Uva e Vinhos

Paulo Palma Beraldo

A produção de vinhos no Nordeste é uma das mais tecnológicas do planeta. A região é uma das principais produtoras de frutas do Brasil. 

Para saber mais sobre o mundo dos vinhos e sobre a realidade local, o De Olho no Campo falou com o pesquisador em enologia (estudo dos vinhos) Giuliano Elias Pereira, da Embrapa Uva e Vinho/Semiárido, localizada em Petrolina-PE. 

Giuliano formou-se em agronomia na Universidade Federal de Lavras, em 1996. Terminou mestrado em 2001 na mesma instituição, trabalhando com sucos de uvas em Minas Gerais. 

Entre os anos de 2001 e 2005 foi para Bordeaux, na França, concluir outro mestrado e doutorado em viticultura-enologia. Desde 2005, trabalha na Embrapa, desenvolvendo pesquisas sobre vinhos tropicais. Ele explica que cada vinho tem uma característica diferente devido ao seu contexto de produção.

As diferenças são devido ao terroir, palavra francesa que significa os efeitos do clima, do solo e do homem, na tipicidade dos vinhos. O homem no sentido de quais variedade usam, como vinificar, etc. Esta é a principal questão no mundo do vinho, tentar valorizar sua tipicidade, em qualquer lugar do mundo, para que os vinhos tenham caráter, e uma identidade regional - esclarece o pesquisador. 

De Olho no Campo: A produção comercial de vinhos iniciou-se nos anos 1980 no Nordeste. Atualmente, já é a segunda região que mais produz no país. Como essa história começou e a partir de que momento o senhor passou a participar dela?
Giuliano Pereira: Fui contratado pela Embrapa Uva e Vinho de Bento Gonçalves-RS em agosto de 2005, quando cheguei em Petrolina, para atuar com pesquisas sobre vinhos tropicais na Embrapa Semiárido em Petrolina-PE. 

Na época, tínhamos o Laboratório de Enologia, em Petrolina, mas nenhuma pesquisa em desenvolvimento. Quando cheguei, providenciamos a aquisição de equipamentos a realização de análises químicas em uvas, sucos e vinhos, e materiais para a elaboração dos vinhos. 

Tinha uma parte, mas adquirimos outra. Assim, fizemos os primeiros trabalhos com a elaboração e análises dos vinhos, que até 2005, era feito somente acompanhamento da parte agronômica e das plantas em campo.

Quais as principais diferenças entre o começo da produção, na década de 1980, e a produção nos dias de hoje?
Muita coisa mudou. Novas empresas chegaram na região no início dos anos 2000, empresas de renome como a Miolo e o Grupo português Dão Sul/Global Wines, com investimentos em tecnologia, tendo um salto de qualidade tanto na diversidade quanto na divulgação dos vinhos.


Como a irrigação pode contribuir para o desenvolvimento das videiras e de que forma isso se reflete na produção do vinho e do suco?
A irrigação é essencial para as videiras e para a fruticultura como um todo na região. Eu diria que a vitivinicultura da região é uma das mais tecnológicas do mundo, pois além da irrigação, tem todo um manejo da videira, com aplicação de hormônios, manejo do dossel vegetativo, estratégias de irrigação, que fazem com que o produtor escolha quando ele que produzir e colher as uvas. 

A irrigação é monitorada e deve ser aplicada de acordo com as fases de desenvolvimento da videira, mas depende do tipo de vinho a ser elaborado. Para uvas de mesa, as empresas tentam produzir o máximo possível. 


Para vinhos, algumas empresas produzem muita uva, com irrigação em grande escala, e outras, para determinados tipos de vinhos, a videira deve sofrer um estresse hídrico, possibilitando que a videira tenha uma redução na vegetação em detrimento da concentração de compostos enologicamente importantes, que darão origem a vinhos de guarda.

A região do Subvale Médio do São Francisco conta com aproximadamente 100.000ha irrigados e potencial de irrigar 220.000ha. O que fazer para que a irrigação seja mais difundida?
O Vale do Submédio São Francisco tem 110.000 hectares irrigados, não somente com a viticultura, e outros 110.000 possíveis de serem implantados. Isto com todos os tipos de cultura. A região tem cerca de 23.000 ha de mangueiras. Especificamente na viticultura, temos 11.000 ha de uvas de mesa, 500 ha de uvas para vinhos e uns 60 ha de uvas para suco. 

O setor vitivinícola está em fase de ajustes, desenvolvendo novos produtos, aumentando a divulgação dos vinhos. Para uva de mesa, as empresas estão buscando por variedades mais competitivas, visto que estão sofrendo concorrências do Chile e do Peru, tanto para a exportação de uvas quanto aqui no mercado interno.

De que forma o manejo de irrigação influencia a composição e as características analíticas dos vinhos e sucos produzidos?
Como disse acima, depende do tipo de vinho. Para vinhos espumantes, a irrigação deve ser aplicada em maiores quantidades, para a videira produzir mais uvas, que serão transformadas em vinhos espumantes, sejam doces (como 7-7,5% de álcool), secos ou meio-secos (12-12,5% de álcool). 

Para vinhos tintos jovens, se buscam maiores produtividades, vinhos mais leves, enquanto que para vinhos de guarda, que passarão uma temporada em barricas de carvalho, tem-se a necessidade de maiores quantidades de compostos fenólicos, extraídos das cascas e sementes das uvas. Por isso a quantidade de água aplicada depende do vinho a ser elaborado.


Os vinhos da região diferenciam daqueles elaborados em regiões tropicais de outros países. Por que isso ocorre? E quais são essas diferenças?
Sim, são bem diferentes, das principais regiões produtoras de vinhos tropicais, como Venezuela, também aqui no Hemisfério Sul, como Índia, Tailândia, Myanmar, Vietnã e China, no hemisfério Norte. As diferenças são devido ao terroir, palavra francesa que significa os efeitos do clima, do solo e do homem, na tipicidade dos vinhos. 

O homem no sentido de quais variedade usam, como vinificar, etc. Esta é a principal questão no mundo do vinho, tentar valorizar sua tipicidade, em qualquer lugar do mundo, para que os vinhos tenham caráter, e uma identidade regional.

Quais as principais diferenças e semelhanças entre vinhos produzidos em regiões temperadas e vinhos produzidos em regiões tropicais?
Na verdade os vinhos possuem os mesmos compostos químicos, onde quer que sejam produzidos, sendo que os 6 grupos de maior importância são: água, álcool, ácidos orgânicos, minerais, compostos fenólicos e compostos aromáticos. As diferenças estão na concentração e nos diferentes tipos dos compostos fenólicos e aromáticos presentes, sendo o que irá influenciar a tipicidade dos vinhos. 

Não se pode comparar vinhos temperados com vinhos tropicais, pelos efeitos clima, solo e homem. O que se deve dizer é que existem vinhos originados de diferentes terroirs, que apresentam tipicidades específicas. 

Da mesma forma não se pode dizer qual o melhor vinho, não existe melhor ou pior vinho, existem diferentes tipos de vinhos, para diferentes tipos de consumidores, sendo que cada consumidor deve identificar, para o seu paladar, aquele vinho que irá se harmonizar melhor com aquele determinado alimento. É a satisfação em função da cultura, paladar, etc.



As conseqüências do aumento da temperatura em diversas regiões do planeta preocupam os cientistas. Como o senhor enxerga o papel da irrigação nessa conjuntura?
A irrigação é uma ferramenta de suma importância, não somente para a vitivinicultura, como para a maioria das culturas agrícolas. O objetivo é fornecer às plantas uma quantidade tal de água, para garantir a sobrevivência e a produção das culturas. Com o aquecimento, algumas regiões deverão adotar a irrigação, outras não. Mas é tudo muito variado, tendo necessidade de estudos específicos para os diferentes casos no mundo.

Para a vitivinicultura, a irrigação garante a vida e a produção de uvas, de diferentes potenciais enológicos, sendo que o tipo de uva e de vinho, depende do nicho de mercado que a empresa quer abordar, bem como das demandas do mercado. Mas a irrigação é fundamental para garantir produção e qualidade. 

O De Olho no Campo agradece pela entrevista e pelas fotos cedidas pelo pesquisador.

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