Especial: O que você precisa saber para plantar batata-doce? Pesquisadora explica

Paulo Palma Beraldo

Apesar dos nomes parecidos, a batata-doce pouco tem a ver com a batata 'comum'. Enquanto a doce é uma raiz, como a mandioca, a outra é um tubérculo. Ou seja: o que comemos da batata é o seu caule, que se desenvolve abaixo da terra. 

A batata-doce é a sexta hortaliça mais cultivada no Brasil. A cada ano são produzidas 500 mil toneladas. O ciclo dura entre 130 e 150 dias. A colheita é mais forte entre os meses de março e outubro. A raiz é boa para quem vive na cidade e quem vive no campo. Pode ser usada na alimentação, pois é excelente fonte de energia, minerais e vitaminas; suas folhas e resíduos podem ser aproveitados para alimentar gado.  

Para falar sobre o cultivo da batata-doce no Brasil e suas particularidades, o De Olho no Campo conversou com a engenheira agrônoma Sônia Maria Nalesso Marangoni Montes, autora do livro "Cultura da batata-doce - do plantio à comercialização". 


A obra traz informações desde a origem da cultura, variedades, formação de mudas, tratos culturais, adubação, pragas, doenças, e custos de produção. Além disso, contém 90 fotos que ilustram os vários processos explicados. 

O livro, segundo a pesquisadora, é uma fonte interessante de informações tanto para quem tem interesse em começar na atividade como para aqueles que já cultivam e buscam informações sobre o tema.

Sônia trabalha na Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), na região de Presidente Prudente, uma das principais áreas produtoras de batata-doce do Brasil, com aproximadamente 2.000 hectares. 

Cerca de 70% das propriedades não passam dos 35 hectares, enquanto outra parte (18%), são de 35 a 70 hectares. A pesquisadora conta que no passado havia um desânimo e até um certo abandono da cultura pela baixa produtividade obtida. 

Ela traz uma dica para quem quer começar a plantar batata-doce:
O uso de mudas livre de vírus e produzidas em viveiros é o principal passo para se conseguir uma lavoura sadia. 

Para saber mais sobre a batata-doce, leia a entrevista completa. 


De Olho no Campo: A região de Presidente Prudente tem cerca de 120 produtores de batata-doce, espalhados em aproximadamente 2.000 hectares. Esses números são constantes ou têm variado nos últimos anos? Qual é o perfil desses produtores? 
Sônia Montes: Nós não trabalhamos com este tipo de estatística. Mas o Instituto de Economia Agrícola apresenta para o ano de 2013 uma área de 1.530 hectares em produção. Quanto ao número de produtores não posso lhe dizer com exatidão quantos produtores temos na região. 

Mas, pela vivência na área, posso lhe afirmar que estes números não são constantes, principalmente se considerarmos que no último ano tivemos preço por caixa bastante elevado e isto fez com que mais pessoas se interessassem pela batata-doce. 

Segundo um diagnóstico que realizamos de maio de 2010 a abril de 2012, 78,6% das propriedades são formadas por mão de obra familiar com contratação de temporários em épocas chave da cultura; 14% possuem conjugam mão de obra familiar e trabalhadores contratados de forma permanente e temporária. 



Algumas culturas no estado de São Paulo têm perdido espaço para áreas de eucalipto, citros e cana-de-açúcar, por razões diversas, entre elas a falta de mão-de-obra. Isso acontece também com a batata-doce? 
A cultura da batata-doce ocupa áreas predominantemente de reforma de pastagem. Mas como as áreas de pastagem vêm sendo invadidas pela cana-de-açúcar, considera-se que o produtor de batata-doce vem enfrentando dificuldades tanto no tocante à terra para arrendar como na mão de obra para contratar, que apresenta-se escassa, desqualificada e normalmente reside na cidade.


A batata-doce vem chamando atenção dos consumidores, principalmente por conta de suas qualidades nutricionais e do apelo à alimentação saudável. Quais os principais benefícios da batata-doce e de que forma esse aquecimento no mercado beneficia os produtores?
Além das qualidades nutricionais que a batata-doce possui, também os chefs de cozinha descobriram a batata-doce e vêm apresentando diferentes receitas. Sabe-se também que é um excelente alimento para as pessoas portadoras de diabetes. 

Além disso os governos federais e estaduais lançaram programas de aquisição de alimentos diretamente dos produtores para merendas escolares, creches e instituições filantrópicas, com garantia de compra e preço, que muito tem beneficiado os produtores. 

Tudo isto, aliado ao fato de que nesta região consegue-se aproximadamente 2,0-2,5 safras/ano, dependendo das condições climáticas, o produtor consegue aferir bom rendimento.


Quais as principais dificuldades enfrentadas pelos produtores? Que tecnologias podem ser utilizadas para evitar as pragas, como as viroses, da cultura da batata-doce?
Segundo o diagnóstico que realizamos na região com alguns produtores, no que concerne às principais dificuldades apresentadas pelos produtores da região de Presidente Prudente, 50% dos entrevistados apresentam a sanidade vegetal como principal problema na cadeia produtiva; 17% no processo de comercialização e o mercado local e 14,3% com a mão-de-obra. 

O uso de mudas livre de vírus e produzidas em viveiros é o principal passo para se conseguir uma lavoura sadia, que além disso vem apresentado precocidade e alta produtividade. A cultura da batata-doce não tem produtos registrados no MAPA para o controle de pragas e doenças, portanto, deve-se estar atento ao manejo de pragas na cultura.

Como é o trabalho desenvolvido pela APTA em conjunto com os produtores de batata-doce? 
Nosso trabalho é atender a demanda regional, sendo a cultura da batata-doce de grande importância para a agricultura familiar e pequenos agricultores. Procuramos atendê-los conforme surge a necessidade por eles apresentada. 

Também desenvolvemos algumas linhas de pesquisa à frente da tecnologia por eles utilizada com o intuito de transferir novos conhecimentos que venham inovar e melhorar o sistema de produção atual. Normalmente trabalhamos com produtores que exercem algum tipo de liderança, para depois então fazer a difusão da tecnologia.


Uma dica importante para alcançar uma boa produtividade é buscar um bom material de propagação da planta, já que ela se reproduz por ramos. Onde pode ser encontrado esse material e quanto custa, aproximadamente, o plantio de um hectare de batata-doce? E a produtividade aproximada da mesma área?
Para uma boa produção é imprescindível que o produtor utilize material de propagação livre de vírus. Este material pode ser adquirido na cidade de Osvaldo Cruz com o biólogo Élcio Rodrigo Rufino, onde ele poderá adquirir mudinhas matrizes para montar seu viveiro e a partir daí começar a produzir suas ramas para plantio. 

No espaçamento de 0,30 x 0,90 cm são necessárias 8.333 mudasramas aproximadamente, que poderão produzir de 800 a 1000 caixas de 25kg por hectare, dependendo da época do ano.


Sobre a questão da produção de ramas de batata-doce em viveiros, como foi a resposta dos produtores ao ver os primeiros resultados? Quais os números atuais deste projeto, em mudas distribuídas, produtores beneficiados etc?
Nós começamos o projeto com uma família de produtores que apresentou maior comprometimento e aceitou fazer o trabalho. No ano seguinte, os vizinhos já se interessaram e começaram a pegar ramas com esta família. Como não temos controle sobre este costume antigo de pegar ramas de uma lavoura em final de ciclo entre produtores, não sei contabilizar quantas pessoas se beneficiaram indiretamente desta tecnologia. 

Acredito que nos viveiros do Pólo nós distribuímos mudas para aproximadamente uns 40 produtores, algo em torno de 3.000 mudas. Atualmente as mudas são produzidas somente pelo Élcio Rodrigo, conforme informação acima, visto que não temos estrutura para dar atendimento à tamanha demanda e também não é nossa missão.

A linha de pesquisa que venho desenvolvendo no momento é o uso do silício no manejo de pragas, onde estou analisando resultados do trabalho já desenvolvido a campo, para avaliar a resistência a insetos na batata-doce condicionada pelo Si.

O De Olho no Campo agradece pela atenção e pelas fotos cedidas por Sônia Montes.
Quem se interessou e quer mudas pode encontrar com o biólogo Élcio Rodrigo, pelo telefone (18) 3528-4779/99784-1488

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