Especial: Entrevista exclusiva com Francine Lima, do canal Do Campo à Mesa

Paulo Palma Beraldo

O De Olho no Campo entrevista hoje a jornalista Francine Lima, do canal Do Campo à Mesa. Mas antes, vamos conversar um pouco.
Você já parou para pensar em tudo aquilo que você come?
Se o refrigerante light é light mesmo? 
E o suco de caixinha? Por que todos têm o mesmo sabor se as frutas e pomares são diferentes entre si?
Isso sem falar dos chocolates com mais açúcar do que cacau...

É para falar sobre esses assuntos que Francine Lima criou o canal Do Campo à Mesa. Ela incentiva as pessoas a lerem os rótulos dos alimentos, verificar as informações nutricionais e passarem a ter uma alimentação mais saudável. 

Francine faz tudo sozinha, desde pesquisas em artigos, livros e revistas científicas, produção de entrevistas, roteiro do vídeo e edição final. 

Francine Lima formou-se em jornalismo no ano de 1997, na Universidade de São Paulo. Colaborou com várias redações de revistas, como a Época. Mas, após passar quase cinco anos como repórter e colunista nessa revista, optou por outros caminhos.

- Na revista Época eu aprendi a ser melhor repórter, mas aprendi também que ter um emprego não é mais importante do que ir atrás de realizar os próprios sonhos. A Época me convenceu de que eu não podia mais adiar o meu sonho - conta a jornalista.

E, para ir em busca de seu sonho, desde 2012, Francine cursa um mestrado em nutrição em saúde pública, na Faculdade de Saúde Pública da USP. Terminará no final do ano de 2014. O foco do trabalho de Francine é a melhorar a qualidade da apresentação da informação nas embalagens. Por vezes, belas imagens escondem informações importantes.

- Não basta dar a informação. É preciso conseguir que a informação alcance o interesse e o entendimento das pessoas. Meu mestrado é sobre rotulagem porque os rótulos dos alimentos hoje estão longe de nos informar adequadamente - revela.

Uma dica interessante é a ordem dos ingredientes nos rótulos. O primeiro é sempre aquele com maior quantidade. 

Em um picolé de morango, por exemplo, a ordem é a seguinte: água, açúcar e, somente em terceiro lugar, morango, seguido por outros elementos como corantes. E o sorvete de baunilha? Entre vários ingredientes, lá no fim aparece: "aroma artificial de baunilha". 
  
Nem o requeijão escapa. Criado nos anos 1950 em Minas Gerais. A receita é simples: leite coalhado, gordura de leite e sal. E o da indústria? É assim mesmo? Alguns requeijões encontrados no mercado contêm corante dióxido de titânio, um composto usado até em placas de trânsito. 

Francine mostra em seus vídeos que somos, muitas vezes, enganados pelo que as empresas querem passar. E por não questionar, acabamos aceitando e consumindo.

Na entrevista abaixo, Francine contou como começou a se interessar pelo tema, sua opinião sobre a responsabilidade das empresas do setor de alimentos e bebidas e como podemos passar a ser mais conscientes em relação àquilo que colocamos na nossa mesa diariamente.

Para começar, gostaria que você falasse quando e como começou a se interessar pela qualidade dos alimentos. E de onde veio seu lema: “o que sabe sobre o que você come”?
A vontade de tratar criticamente do tema da alimentação vem do século passado, quando saí da casa dos pais e vim me virar em São Paulo pra fazer faculdade. Sem empregada, sem comida no prato, como eu tinha até então, e sem saber cozinhar, a solução mais fácil era comer porcaria. Mas eu sabia o que era uma boa alimentação, porque fui bem educada para isso, e não queria comer porcaria. 

Observei o que as outras pessoas faziam e percebi que muita gente matava a fome com o que encontrava ao seu redor, sem se preocupar muito se era boa comida ou não. Mesmo havendo informação disponível sobre alimentação saudável na mídia. Meu trabalho de conclusão de curso na graduação, chamado “Comendo de mentirinha”, foi uma tentativa de examinar essa discrepância entre a oferta de informação na mídia e as práticas alimentares. 


Daí em diante fui aguçando meu olhar, melhorando minhas leituras e aos poucos entendendo melhor onde morava o problema. O lema surgiu quando entendi que as pessoas tomam decisões melhores quando estão suficientemente bem informadas – coisa da qual a mídia mainstream (tradicional) não tem cuidado direito, no meu modo de ver. 

E como surgiu a ideia de fazer um site e um canal sobre isso? 
Eu já tinha um blog fazia anos e depois criei a fanpage no Facebook. Os vídeos vieram por último, depois que eu já havia testado o interesse do público pelo texto. Trazer minhas pensatas para a linguagem audiovisual foi uma nova tentativa, que me parecia ter maior chance de sucesso, porque é mais fácil atrair atenção com imagens do que com palavras. Além disso, o vídeo permite fazer brincadeiras que no texto eu não conseguiria fazer. Logo, torna-se mais divertido. 

Como você avalia, na atualidade, a “responsabilidade nutricional” das empresas alimentícias brasileiras? Isso tem melhorado nos últimos anos?
O que eu percebo é que existe mais espaço para marcas “do bem” atraírem mais consumidores, porque há mais consumidores conscientes. O mercado se expande com a inclusão de novos players, menores. 

Mas as grandes empresas globais ainda lucram muito em cima de produtos de má qualidade, na base de investimentos pesados em comunicação de marketing, que ainda funciona porque a qualidade da informação que chega à maior parte do público é pobre. 

Quem consome das marcas de nicho é gente mais bem informada. Informar mais pessoas sobre o que está acontecendo e ajudá-las a entender que essas empresas de atuação global não estão fazendo o bem para elas, em boa parte dos casos, é crucial pra que as empresas se sintam forçadas a se responsabilizar de verdade. É muito fácil vender porcaria para quem consome qualquer coisa de olhos fechados.

O que pode ser aprimorado nesse aspecto? 
Por enquanto quem eu vejo se interessar em informar direito os consumidores são umas poucas ONGs, blogueiros, jornalistas aqui e ali, professores em escolas de ensino fundamental e médio. 

São iniciativas pequenas, muitas vezes isoladas, sem grandes recursos na comparação com a grana preta investida pelas empresas globais para passar a mensagem oposta – a da desinformação. 

A estratégia dessas iniciativas pequenas é espalhar a informação que possuem o quanto podem e torcer pra que um dia algum poderoso – o Ministério da Educação, o da Saúde, a TV Globo – coloque a pauta em destaque.




Por outro lado, que empresas você acredita que estejam avançadas?
A produção orgânica e agroecológica me parece ser a salvação para boa parte dos problemas alimentares, embora se diga que não é possível alimentar o mundo com ela. Eu não sei se não é possível, mas não é difícil perceber que é daí que vem o tipo de alimento que deveríamos consumir, o tipo de relações de consumo que deveríamos cultivar, e até o tipo de informação que deveríamos espalhar.

Você já trabalhou em diversas publicações. Se pudesse apontar uma, qual foi a mais marcante? O que aprendeu lá e não irá esquecer?
Eu já colaborei com diversas publicações, o que é diferente de estar na redação todo dia. Tive apenas uma experiência duradoura em redação, na revista Época. Minha primeira colaboração foi para a Nova Escola (Abril), e foi muito emocionante trabalhar com o tema da educação, porque é isso que realmente me move: o intuito de educar. 

Entrevistei, por telefone, 30 professores finalistas de um prêmio e me apaixonei pelos projetos de vários deles e pela força que eles tinham pra realiza-los. Eu acho a educação uma coisa linda, quando funciona. 


"Há todo um mundo por trás do modo como consumimos, dos produtos que consumimos". 

Você está cursando um mestrado em nutrição em saúde pública. Como era sua visão sobre o tema antes de começar o mestrado e atualmente?
Entrei em 2012 e rapidamente visualizei que o tema com que eu deveria lidar era mais amplo do que eu enxergava até então. Não era só o perfil nutricional dos produtos. Não era só a indústria. Não era só o consumo. Há todo um mundo por trás do modo como consumimos, dos produtos que consumimos. 

Um mundo que passa pela política, pela história, pela cultura, pela educação formal, pelos instrumentos democráticos e também pelos não democráticos, pelos acordos internacionais, pela colonização de diversos países, pela ciência... Passa por tudo.

Na sua opinião, qual a importância desse tipo de especialização para os jornalistas?
Meu mestrado não é uma especialização para jornalistas. Sou a única jornalista no programa, eu acho. As disciplinas não foram feitas para jornalistas e eu “pago meus pecados” tentando fazer a ponte entre a estrutura do curso e a área de comunicação. Acho que não temos no Brasil um curso estruturado para jornalistas nessa área. O conhecimento que estou construindo é uma busca minha, juntando retalhos. 

Que conselho você daria para as pessoas que não se importam muito com o que comem e a procedência desses alimentos?
Não sei se é possível aconselhar quem não se importa minimamente. Presta atenção quem quer.  Mas tento chamar atenção também dos distraídos, não só porque cada um que come melhor faz bem para si mesmo, mas porque faz bem também para os outros. 

Eu tentaria avisar que a alimentação saudável e sustentável é a base para um monte de transformações benéficas para as pessoas, para a economia, para o meio ambiente, para a cidadania. 

Se a pessoa quer o bem de sua família, seu vizinho, de sua cidade, de seu país, além do seu próprio, deveria prestar um pouco mais de atenção ao que está pondo dentro de seu corpo e a quem está dando o seu dinheiro. Porque talvez seja ao inimigo.



O De Olho no Campo agradece pela atenção de Francine Lima.

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