Especial: Entrevista exclusiva com André Trigueiro, jornalista da TV Globo e apresentador do Cidades e Soluções

Paulo Palma Beraldo

De Olho No Campo traz como entrevistado André Trigueiro para conversar sobre agricultura, meio ambiente e sustentabilidade. Alguns assuntos abordados na conversa, que durou 30 minutos, foram o desperdício de alimentos, o Código Florestal, o papel da imprensa nessa questão e a agricultura orgânica. Nem tudo que se colhe, infelizmente, chega à mesa de quem precisa. 

Segundo um relatório do Comitê de Oxford de Combate à Fome, o mundo possui mais de 800 milhões de pessoas que passam fome. No Brasil, 7% da população (14 milhões) ainda passam os dias com menos alimento do que deveriam.

Se você costuma ligar a televisão no canal GloboNews e assiste ao programa Cidades e Soluções, sabe de quem eu estou falando. Para quem não conhece, o programa trata de situações em que desenvolvimento e preservação ambiental caminham juntos.

Sempre interessado pelo meio ambiente, André Trigueiro acha difícil especificar o momento exato em que passou a se interessar pela área. Segundo ele, o divisor de águas ocorreu há quase 22 anos. 

- Profissionalmente falando, foi a cobertura da Rio 92. A cobertura da conferência da ONU sobre meio ambiente e desenvolvimento foi muito marcante - conta.

Na época, trabalhava para a Rádio Jornal do Brasil. Um ano depois, entrou na Rede Globo e, em 1996, foi convidado para entrar no Jornal das Dez da Globonews, como repórter e apresentador, onde permaneceu até 2012. Com o Cidades e Soluções, existente desde 2006, já ganhou mais de dez prêmios de jornalismo. Além disso, apresenta desde 2003 na Rádio CBN o programa Mundo Sustentável. 

Confira abaixo os melhores trechos da conversa.

De Olho No Campo: Gostaria que você falasse sobre algumas práticas agrícolas sustentáveis que você conhece.

André Trigueiro: Nós fizemos um programa na Globonews, o Cidades e Soluções, que a gente mostrou dois personagens que não são reconhecidos publicamente como agricultores mas realizam atividades produtivas em uma escala menor. 

O ministro Gilberto Carvalho, nos arredores de Brasília, e o ator Marcos Palmeira, na Região Serrana do Rio. Ambos utilizando a mesma técnica de produção agrícola orgânica, sem utilizar agrotóxicos ou transgênicos e com métodos muito interessantes de combate às pragas e de manejo do solo que poderiam ser bastante inspiradores para a agricultura familiar no Brasil. 

Eu não consigo ver futuro para a agricultura que não consegue medir a capacidade de suporte, a resistência dos recursos hídricos ou do solo, quer dizer, a exaustão dos nutrientes do solo e da capacidade do solo de reconfigurar seus nutrientes. O uso insustentável de água representa ameaças concretas mensuráveis na agricultura do Brasil.

E onde existe esse cuidado com recursos da agronomia, com recurso das boas praticas que não preconizam como principio mais importante a obtenção do lucro a qualquer custo, mas uma agricultura que se pensa no longo prazo, no uso mais sustentável dos recursos, onde isso acontece a gente consegue ver com bons olhos.

Você comentou os dois exemplos de produtores orgânicos e disse que eles têm alguns métodos podem ser inspiradores. Pode citar alguns exemplos práticos?

Por exemplo, o uso de certas espécies que causam aversão às pragas. Você produz e desenha um espaço destinado ao cultivo de várias espécies. Promove a cultura da rotação. Você afasta predadores usando espécies que determinam e exalam substâncias que são potencialmente danosas às pragas. Você faz uma combinação interessante das espécies, utilizando muita inteligência no projeto de maneira que elas se retroalimentem.


A fixação de nitrogênio no solo, a maneira como você distribui as plantas no solo leva em conta a combinação existente entre elas. Você também pensa em uma polinização. Certas espécies são colocadas ali no sentido de permitir, através desse intercâmbio, uma melhor produtividade. 


O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) tem adotado um manual e replicado seus conteúdos em diferentes cursos pelo Brasil no entendimento de que ele aumenta a produtividade sem o uso de substâncias que poderiam ser danosas ao meio ambiente. 

Mas, via de regra, a ideia é usar a água de forma inteligente e fazer uma combinação adequada das espécies, com uma blindagem natural contra as pragas, eliminando drasticamente os riscos de perda.



"A discussão do aquecimento do global está no presente. O presente está sendo claramente desconfigurado".

Um dos grandes problemas é a questão do desperdício de alimentos. O Brasil tem uma produção grande, mas muito não chega onde deveria chegar. Como resolver essa questão?

Essa questão pode ser resolvida com inteligência. Vamos dar um exemplo concreto. O que eu vou contar é uma história real. O camarada produz couve. Ele tira as folhas da couve ainda no campo para colocá-las nos caixotes que vão para o mercado. 


Você já tem uma perda na largada de muitas folhas que são descartadas para que possam entrar mais couves no caixote. Essas folhas nem sempre são reutilizadas como adubo. Viram lixo agrícola. Essas folhas são nutrientes e podem ser usadas sim.

Elas são usadas em programas ligados à segurança alimentar, que fazem o cadastramento e a coleta, não só disso que é produzido ainda no campo, esses restos que não deveriam ser confundidos com lixo, mas também o varejo aquilo que não deveria ser descartado mas não tem uma apresentação agradável ao consumidor. Uma laranja escura, um tomate amassado. 


Existem redes de coleta de alimentos, essas sim para redistribuição disso em creches, orfanatos, asilos e instituições que fazem uso desses alimentos que não representam riscos à saúde embora não tenham uma apresentação adequada. 

O Brasil não tem infraestrutura adequada para escoamento de grãos, para o transporte de hortifrutis, o desperdício é gigantesco e pode ser resolvido onde haja informação, onde as pessoas realmente realizem ajustes nas suas rotinas e procedimentos que permitam que esse desperdício seja reduzido.


No Brasil existe uma rede, uma das maiores do mundo nessa direção, que organiza o banco de alimentos. Então boa parte do território nacional existem restaurantes, mercados, hortifrutis, que oferecem a essa rede os alimentos com a configuração que a gente conversou há pouco, no intuito de reduzir o desperdício e levar o alimento onde ele não chega.


André também dá palestras ao redor do Brasil e é professor  na PUC-RJ.
Foto: Hermes Bezerra.

Qual sua opinião sobre os programas federais para a preservação?

Lamento que a visão prevalente no governo seja a do Programa de Aceleração do Crescimento. Crescimento que, ao que parece, não tem compromisso com a sustentabilidade, o que é lamentável. 



Um economista da PUC-SP, Ladislau Dalbor, diz com muita propriedade uma frase que eu acho lapidar: “crescer por crescer é a filosofia da célula cancerosa”. Não nos interessa crescer a qualquer custo. Isso não se restringe à ciência, ao meio ambiente.

O Código Florestal é um desastre. O texto aprovado não elimina a insegurança jurídica no campo. O desmatamento aumentou depois de sucessivos anos de queda. O Cadastro Ambiental Rural (CAR) ainda não é uma realidade. Nesse campo, é difícil apontar aonde o governo tenha acertado.

Como você enxerga o papel do jornalismo ambiental, qual seria a função dele?

Eu não me sinto muito confortável com essa história de jornalismo ambiental. O jornalismo tem um aspecto que é inter-relacional. Ele é plural, é sistêmico. Não sou jornalista ambiental. Sou jornalista. Muito interessado em sustentabilidade. A sustentabilidade se distribui por todas as áreas do saber. Eu acho que o jornalismo precisa estar atento aos efeitos colaterais dos modelos de desenvolvimento que se revela profundamente ameaçador ao meio ambiente.

Ele promove a destruição dos recursos naturais não renováveis fundamentais à vida. A gente precisa ter no jornalismo a coragem de explicar, de traduzir e decodificar esses riscos. Deixar muito claro o que está jogo, quais os interesses em jogo, no sentido de que haja mais responsabilidade nesse processo. 



"O agricultor merecia mais respeito. Os estudiosos do meio ambiente mereciam mais respeito", sobre o Código Florestal. 

Como o aquecimento global pode afetar a agricultura no futuro?
O aquecimento global já está afetando a agricultura no presente. O clima no Brasil mudou. Não se cultiva mais maçã em Santa Catarina como se fazia há poucas décadas atrás. Simplesmente porque o clima lá era temperado e passou a ser mais tropical. As mudanças estão em curso. Elas são mensuráveis. Não é apenas uma questão que mereça ser colocada no tempo futuro. A discussão do aquecimento do global está no presente. O presente está sendo claramente desconfigurado.

Na agricultura existem estudos importantes da Embrapa, estudos da ESALQ, que já mapearam com muita clareza o que está em jogo. Em resumo, a história é a seguinte: o clima está mudando. É preciso redefini-las no mapa da agricultura brasileira. Certas culturas são mais sensíveis, outras mais resistentes. Cada caso é um caso, mas na área agrícola quem não começar a prestar atenção nessas mudanças, vai perder.


Como unificar a agenda da produção com a da preservação?
Na verdade isso não é um problema. É uma solução. Eu não conheço nenhum produtor responsável que não tenha uma preocupação sincera com o meio ambiente, porque ele depende do meio ambiente saudável para ter lucro. Na Grã-Bretanha, o ministério de agricultura e meio ambiente estão reunidos em uma só pasta. É um único ministério.

No Brasil se continua a cultura da antipatia mútua entre ministério do meio ambiente e ministério da agricultura, porque na história do Brasil a ocupação da área agricultável, a expansão da fronteira agrícola, a destruição das florestas, você criou aí um conflito que determinou na evolução do tempo essa dificuldade de harmonizar os interesses. Mas esses interesses não são conflitantes entre si. São complementares. Agricultura não pode ser contra o meio ambiente. Meio ambiente não pode ser contra a agricultura.

E sobre o Código Florestal?

O debate sobre o Código Florestal, na largada, foi contaminado por uma posição assumida pelo relator, escolhido pelo governo, deputado Aldo Rebelo, quando dedicou, por exemplo, o seu relatório aos agricultores brasileiros. Estou te dando uma dica de como o relator foi infeliz num assunto tão cheio de polêmica, de disputa e antigas brigas e conflitos. 



"Agricultura não pode ser contra o meio ambiente. Meio ambiente não pode ser contra a agricultura".

Ele botou mais pimenta no molho ao tomar partido e, em certa medida, deixar clara a posição dele. Que não era de árbitro, nem de mediador. Era de alguém que estava claramente interessado em abrir caminho para um determinado lado da história. E essa historia não tem um lado só. Ela sempre terá dois lados.

Como deveria ser o Código Florestal?

Não tenho competência para entrar em todos os pormenores técnicos. Mas, em linhas gerais, acho que o governo falhou ao só prestar atenção no rumo desse processo quando ele já estava definido da pior forma possível. O governo lavou as mãos. Escolheu um relator que foi infeliz na apuração das informações de todos os lados possíveis.

Deveria prevalecer o interesse de construir um texto base que harmonizasse os interesses e as informações na busca pelas soluções, não de consenso, mas as soluções que seguisse a cartilha do razoável. A melhor negociação é aquela em que ambos os lados estão dispostos a ceder na busca de um resultado que seja o mais bem embasado cientificamente.

O maior geógrafo da história do Brasil, Azis Ab’Saber (1924-2012), morreu na fase final da tramitação do Código Florestal do Congresso reclamando muito da forma apressada e sem critério científico com que foi aprovado esse texto. A crítica contundente veio de quem mais entende de ciência e de recursos hídricos.

A Academia Brasileira de Ciências e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência condenaram o texto aprovado por não ter estudo científico. Não tinha base técnica para aprovar o que foi aprovado. A Agência Nacional de Águas condenou, em nota, esse texto por entender que ele representava uma ameaça real às bacias hidrográficas brasileiras.

É inadmissível que o Congresso Nacional tenha realizado esse trabalho da forma como o fez. O agricultor merecia mais respeito. Os estudiosos do meio ambiente mereciam mais respeito. Nossos representantes não souberam lidar com certas pressões e transformaram esse debate em um cabo de guerra. 

O De olho no campo agradece pela atenção de André Trigueiro. 

Crédito das fotos: Hermes Bezerra.

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