Pecuária e sustentabilidade: uma união rentável

A integração entre lavoura, pecuária e floresta aumenta a produtividade, diversifica a renda e preserva o meio ambiente

Paulo Palma Beraldo

Maria Fernanda Guerreiro sempre teve a dúvida que todos os produtores rurais têm: como melhorar sua propriedade e aumentar a renda? Ela achou a resposta. E, apesar de atender por um nome difícil, a ideia é simples: conciliar a produção de carne, leite, madeira, grãos e pastagens em uma mesma propriedade rural. O nome? Integração lavoura, pecuária e floresta, a ILPF. 

Além de diversificar a renda, a ILPF possibilita utilizar melhor o espaço da propriedade e preservar o meio ambiente. É isso que ocorre na Fazenda Nelson Guerreiro, em Brotas-SP. E, segundo estimativas da Embrapa, é o que ocorre em aproximadamente dois milhões de hectares que utilizam os diferentes formatos da ILPF. Ao colocar árvores em conjunto com lavouras e criação de gado, o produtor pode ter diversas rendas vindas do mesmo espaço.

No mundo atual, em que sustentabilidade é a palavra de ordem, a agricultura e a pecuária não poderiam ficar de fora. E a ILPF é uma das práticas capazes de aliar produção e sustentabilidade no campo. Como lembra o professor Dr. Anibal de Moraes, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), quando se produz de maneira sustentável, questões econômicas, sociais e ambientais devem estar equilibradas.  

Anibal, que também é coordenador nacional do Programa de Produção Integrada em Sistemas Agropecuários (PISA), enfatiza que “deve existir a maior eficiência possível no uso dos recursos naturais (solo, água e energia solar), ampliando a produção com menor aplicação de insumos (por exemplo, adubos) e reduzindo a poluição, para que a produção ocorra de forma ambientalmente adequada”. 

Fazenda Nelson Guerreiro, em Brotas-SP. Espécies zebuínas dividem espaço com eucalipto citriodora, capim brachiaria e leguminosa estilosante.
Foto: Paulo Palma Beraldo

Na atividade agrícola, as preocupações vão desde a economia até as condições climáticas. Evitar inseguranças como queda de preços, seca ou tempestades é sempre um objetivo de quem vive do campo. E diversificar a produção é uma forma de amenizar esse problema. 
“A diversificação de renda faz com que o rendimento no longo prazo se torne menos frágil, com maior resiliência ao principal causador de frustrações de safras de lavouras e de pastagens: a adversidade climática”, afirma a professora Dra. Claudete Reisdorfer Lang, da Universidade Federal do Paraná, que também atua como pesquisadora e extensionista.

Na opinião do engenheiro agrônomo Xico Graziano, Secretário Estadual do Meio Ambiente de São Paulo entre os anos de 2007 e 2010, os sistemas de integração são “uma enorme evolução na tecnologia agronômica adaptada às regiões tropicais, quase uma revolução conceitual e prática sobre a forma de se produzir na agropecuária do Brasil”. 

Xico Graziano diz que a ILPF é uma forma de intensificar a produção agrícola, levando em conta o respeito ao meio ambiente local e os conhecimentos, capacidades e aptidões de cada produtor. “Vejo o sistema ILPF como uma tecnologia amigável, e nesse sentido ele pode ajudar muito na introdução dos conceitos ligados ao bem estar animal”. 

E acrescenta: “na renovação das áreas de pastagens, a produtividade, a médio e longo prazo, vai se elevar, com mais quilos de carne ou leite por hectare”, declara. Para Graziano, a maior vantagem do sistema ILPF é sua versatilidade. “Ele pode ser adaptado, não é uma receita única”. 

Em 2013, foi sancionada a Política Nacional de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (Lei 12.805/2013). O objetivo é promover a recuperação de áreas degradadas, incentivando o uso de técnicas sustentáveis de cultivo e de criação de animais. A lei faz parte do Plano Nacional de Redução das Emissões de Gases de Efeito Estufa (Plano ABC). Existem linhas de crédito para os produtores que quiserem  adotar a ILPF dentro do Programa Agricultura de Baixa Emissão de Carbono (Programa ABC). Mais informações sobre as linhas de crédito podem ser acessadas no site do Ministério da Agricultura.

ILPF é mais eficiente e menos impactante para o meio ambiente

O engenheiro agrônomo Ronaldo Trecenti, da CAMPO Consultoria e Agronegócios, trabalha como consultor de ILPF em mais de dez estados do Brasil, principalmente nas áreas do Cerrado, onde a proporção de pastagens degradadas é superior à do restante do país. Ele conta que cerca de 50 milhões de hectares de pastagens no Cerrado estão em algum estágio de degradação – ou seja, com rendimento abaixo do recomendado. 

Ronaldo comenta que, ao comparar áreas de ILPF com áreas de pastagens abertas, verificou-se “um ganho na produção de leite de cerca de 10 a 20% por animal e de 10 a 15% de ganho de peso por animal”. E diz também que em regiões onde há ocorrência de geadas ou chuvas fortes, as pastagens arborizadas sofrem menos danos. “No pasto a pleno sol, a geada queima todo o capim. No pasto com ILPF, a pastagem permanece verde e boa. Isso se reverte em ganho econômico para o produtor”. 

Além disso, na entressafra, os pastos ficam secos e a alimentação natural, escassa. “O animal acaba se alimentando menos e perde peso. No final da seca, a temperatura tem forte elevação e, na pastagem sem arborização, os animais gastam energia para resfriar os seus corpos. A energia gasta deixa de produzir leite ou carne”, explica. De acordo com Ronaldo Trecenti, a ILPF propicia maior conforto térmico aos animais, com reflexos positivos na taxa de natalidade, na produção de leite e no ganho de peso. 

Ronaldo Trecenti explica também que na ILPF as receitas das lavouras e da pecuária cobrem as despesas da implantação da floresta. Portanto, o dinheiro proveniente do futuro corte das árvores será uma “poupança verde”.

Outro profissional que acredita no potencial da ILPF é o engenheiro agrônomo João Kluthcouski, pesquisador da Embrapa Arroz e Feijão, localizada em Santo Antônio do Goiás, no centro do estado. Ele atua com manejo de solos e é especialista em integração lavoura-pecuária-floresta. 

João Kluthcouski afirma que com a ILPF é possível produzir carne a uma menor despesa, “podendo o custo da arroba ser de até menos da metade do verificado na pecuária tradicional ou confinamento”. E enumera mais algumas vantagens do sistema, como a menor emissão de gases do efeito estufa, redução de riscos climáticos (erosão, falta de pastos na entressafra, perda de água do solo, ventanias) e o menor gasto com agrotóxicos. 

 “Um pé em cada barco”

Em Brotas, no interior de São Paulo, a Fazenda Nelson Guerreiro implanta a ILPF desde 2011. A proprietária Maria Fernanda Guerreiro já conciliou mais de seis atividades nos 100 hectares da propriedade desde que começou a utilizar o sistema. Laranja, milho, cana, produção de carne e leite são algumas das atividades da propriedade. Para criação de gado, as raças escolhidas foram Nelore, para gado de corte, e Girolando, para o leite. 

Fazenda Nelson Guerreiro, em Brotas-SP, concilia produção de laranja, milho, cana, carne, leite e madeira.  Foto: Paulo Palma Beraldo

A criadora conta o que colaborou para a escolha das raças. Segundo ela, a opção pelo gado Gir foi para formar matrizes leiteiras Girolando. "Na  região há escassez de vacas de leite com melhor potencial genético”. Outra iniciativa foi engordar novilhas da raça Nelore. "Para a venda de novilha precoce, que é um nicho de mercado diferenciado", explica. A taxa de ocupação na fazenda é de quatro animais por hectare.

Maria Fernanda conta que o objetivo, desde o começo, era aumentar e diversificar as receitas da fazenda. “Ficar com um pé em cada barco”, brinca ela, rindo. Maria Fernanda relata algumas dificuldades que enfrentou no processo, além de dar alguns conselhos para quem pensa em utilizar a ILPF. “Esse sistema não é para qualquer produtor. É algo que você tem que acompanhar sempre. Você tem que procurar informação, ter disposição de trabalhar e de fazer algo diferente. Às vezes, disposição de apagar tudo que você fez e de repente fazer diferente”. 

A Fazenda Nelson Guerreiro tem uma parceria com Embrapa Pecuária Sudeste, localizada em São Carlos, e já recebeu mais de 150 visitas. Segundo Maria Fernanda, a proximidade com a Embrapa e a troca de informações e experiências com os pesquisadores é fundamental para o sucesso do projeto.  

Em Minas Gerais, exemplos de sucesso

Cerca de trinta centros de pesquisa da Embrapa ao redor do país fazem parte da rede de transferência de tecnologia da ILPF. Um deles é a Embrapa Milho e Sorgo, localizada em Sete Lagoas-MG. Ramon Costa Alvarenga trabalha na unidade há mais de 20 anos e pesquisa conservação de solos e recuperação de pastagens. 

De acordo com ele, a ILPF pode solucionar um grande problema de diversos pecuaristas: recuperar pastos sem custos elevados. Para recuperar os pastos com insumos, entram os gastos com óleo diesel do trator, adubos, fertilizantes, entre outros. Com a formação de lavoura no sistema para recuperar pasto, a colheita paga boa parte do dinheiro investido na plantação. “Pelo menos 50 a 60% do investimento, a gente consegue pagar logo no primeiro ano”, revela. 

Além desse benefício, Ramon ressalta que “a lavoura deixa os nutrientes residuais, que contribuem para a fertilidade do solo, favorável tanto para as árvores quanto para o pasto que virá na sequência”. Ele cita ainda a questão da ciclagem dos nutrientes, por meio do qual o solo absorve folhas, ramos e galhos que caem das árvores. 



Minas, o maior produtor de leite do Brasil, conta com centenas de produtores familiares que vivem dessa atividade. Na cidade de Maravilhas, com cerca de sete mil moradores, a ILPF vem mudando a realidade de pequenos produtores. Um projeto desenvolvido em parceria com agricultores familiares do município, profissionais da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais, da Embrapa Milho e Sorgo e da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais, implantou mais de 1.200 Unidades de Demonstração (UDs) de ILPF e capacitou mais de 500 técnicos e produtores rurais em todo o estado. 

O projeto conta com apoio da Secretaria de Agricultura do Estado e foi certificado como Tecnologia Social pela Fundação Banco do Brasil (FBB), que reconheceu que a ILPF proporciona melhoria de renda e de qualidade de vida no campo e pode ser replicada pelos agricultores familiares.

Maria Celuta Viana, uma das colaboradoras desse projeto, comenta que inúmeros produtores de Maravilhas e região tinham pastagens com baixa produtividade. Maravilhas está localizada em um polo siderúrgico com demanda por madeira reflorestada. Quando vendem a madeira, produtores obtêm uma renda que não teriam se trabalhassem com atividades isoladas de agricultura ou pecuária. 

Segundo Maria Celuta Viana, todos os benefícios vindos da ILPF tiveram reflexos na vida dos proprietários. Alguns triplicaram a produção leiteira e puderam renovar seus equipamentos e implementos agrícolas. “A grande vantagem deste sistema é que pode ser adotado em qualquer tamanho de propriedade e nível tecnológico do produtor. Existe no comércio, maquinário adequado para implantação da ILPF, tanto pelo produtor familiar quanto pelo empresarial”. 

Maria Celuta afirma que as Unidades Demonstrativas (UDs) serviram para provar que a tecnologia se aplica às propriedades familiares e que pode ser adotada por qualquer produtor, desde que acompanhada da assistência técnica oficial. O custo médio por hectare, segundo ela, é de quatro mil reais.

O que é necessário para implantar IlPF? 

Ronaldo Trecenti, da CAMPO Consultoria e Agronegócios, explica com uma comparação interessante qual é o primeiro passo a ser tomado. “É como se você fosse ao médico. Ele vai fazer um diagnóstico da tua situação para poder identificar seu estado de saúde”. E acrescenta: “O técnico tem que visitar a propriedade, fazer o diagnóstico daquela realidade, analisar o tipo de solo, estudar as condições climáticas, a declividade, a temperatura, a ocorrência de fenômenos como geada, chuva de granizo, ventos fortes”. 

Depois dessa fase, entra a análise de mercado: avaliar quais são as melhores opções de produtos para a área e qual a demanda regional. E é por isso que a ILPF pode ser estabelecida em qualquer região do país e em qualquer propriedade: porque cada uma delas tem sua realidade, seu clima e sua demanda de produtos. 

A partir daí, é hora de elaborar um projeto. “Alguns dos fatores que devem ser considerados são: combinação dos componentes lavoura, pecuária e floresta, tipo de atividade pecuária (leite ou corte e espécie animal), nível tecnológico e região da propriedade”, lembra a Professora Dra. Claudete Lang, da UFPR. Outra dica é procurar produtores na região que já utilizam o sistema para trocar ideias e conhecimentos sobre o tema. Pesquisar na Internet também é uma saída. 

Com a voz calma e o leve sotaque mineiro, Ramon Costa, da Embrapa Milho e Sorgo, aconselha os produtores a conhecerem e estudarem bem o método, para depois implantá-lo em grandes áreas.  “Essas tecnologias são para alguma parte da propriedade. Faça uma parte, veja como funciona, se está dando certo, para depois aumentar o percentual dentro da fazenda”.

Segundo Ronaldo Trecenti, é preciso que mais produtores conheçam essas possibilidades e as linhas de crédito disponíveis. E também que “a assistência técnica seja capacitada e que os estudantes nas instituições de ensino de ciências agrárias, agronomia, medicina veterinária, zootecnia, técnicos em agropecuária, agronegócio, enfim, que o pessoal passe a ter conhecimento da ILPF”.

A integração lavoura-pecuária-floresta apresenta-se como uma solução inovadora para produzir, já que diminui a necessidade de abertura de novas áreas ao maximizar a produção das já existentes. Até 2050, será preciso dobrar a produção de alimentos no mundo e o Brasil terá que responder por 40% desse aumento. 

A ILPF é a união da produção crescente, dos ganhos financeiros para os produtores e da necessidade de sustentabilidade ambiental, fundamentais para a consolidação do Brasil como um dos maiores produtores de alimento do mundo. É a prova de que produção e preservação podem coexistir.

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